Joseph Heller: A Hora Final

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A preguiça enseja o retorno do passado na forma de cacoetes. Isto é especialmente verdade quando se trata de Joseph Heller em A Hora Final. Ainda que eu não tenha lido Ardil 22, o livro pelo qual Heller é lembrado e do qual o volume atual é continuação, minha experiência com outros romances do autor me credencia a perceber que se trata mais de um exercício de conforto do que um desafio. Na altura cronológica deste romance Heller já vinha se bandeando para os lados de uma escrita irreverente consigo mesma, como se observa em Imaginem que…, onde ele contrapõe Sócrates e Rembrandt em uma mistura provocativa de ficção e história. Em meio ao stress decorrente deste processo criativo pode ter sido divertido voltar ao universo conhecido onde judeus convivem entre si e com o absurdo da guerra.

Absurdos não faltam em A Hora Final. As leis da física são desrespeitadas, os capítulos são rabiscados justamente quando os fatos mais majestosos ocorrem. Heller prefere se prolongar nas pequenas epopeias pessoais de pessoas que, como ele, envelhecem. É como se ele estivesse demonstrando a forma como os eventos e as pessoas e os fatos têm seus pesos reconsiderados a certas alturas da vida. Os fatos ocorrem rápido demais em certos pontos, personagens certamente pomposos são relegados a duas frases de descrições, as personagens reconsideram continuamente seus dias passados e a inevitabilidade de ser quem se é reforçada pela certeza de que os amigos também seguem sendo quem eles são. No fim das contas, estamos fadados ao anonimato em menos de uma geração, possivelmente ainda durante nossas vidas.

O que não significa que não possamos rir. O absurdo domina nossos dias, o absurdo de como agem as pessoas ao nosso redor, o absurdo fantástico ao qual a máquina da tecnologia e da economia que ela move nos levou. Heller tem a certeza curiosa de que o trem nos leva em alta velocidade e de que não há maquinista em lugar nenhum que possa ser visto. Heller, em sequências oníricas perturbadoras, postula ironicamente sobre a existência do inferno e até teoriza sobre sua, quem diria, finitude, mas não se presta a acreditar em nada que esteja acima ou além, mesmo que suas personagens por mais de um momento se ajoelhem sem serem incomodadas por seu criador. Seja qual for o criador de que eu esteja falando. Sim, muitas vezes eu não falo só por mim.

Os judeus de Heller relembram a segunda guerra, aquela que forjou suas existências. O paradoxo de terem sobrevivido aos horrores, os momentos que se cristalizam em gemas sob alta pressão assombram suas existências até mais do que os respectivos cânceres, as solidões frias de apartamentos caros ou os filhos que não conseguirão sobreviver à morte dos pais provedores. Num mundo com dinheiro demais, não há espaço para uma certeza de felicidade ou mesmo para acreditar num cataclismo nuclear que, no começo dos anos noventa, já começava a cheirar mal logo depois de ser uma moda tão poderosa nos anos oitenta. O tempo é cruel com a vanguarda estética de qualquer era.

O liquidificador de Heller mistura de forma pouco uniforme referências díspares como Wagner, Mann e o personagem de Kubrick, Doutor Strangelove. Os mísseis singram a atmosfera sobre os aviões de carreira e sobre as vidas preocupadas de todos que acham que os outros estão dando seu melhor por nós, mas a preocupação nunca se dá sobre esta morte súbita dos mísseis atômicos e da guerra impessoal contemporânea; nosso terror é reservado ao definhar lento de nossa vida qualquer e de nossas relações, conexões de fios frágeis que se afinam como os cabelos à medida que as rugas enchem nossos rostos. A Hora Final é mais de uma hora, é um período de tempo que se repete diante de nossa ansiedade cansada até o desfecho pelo qual, paradoxalmente, ansiamos. Por algum tempo.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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