Haruki Murakami: Minha Querida Sputnik

murakamisputnik

Desde o princípio desconfiei que este romance do Murakami me deixaria cedo demais. Suas duzentas páginas, no entanto, são a duração perfeita ao que propõe o escritor japonês. Uma história de amor em sua camada externa, Minha Querida Sputnik em sua essência flagra o processo de auto-descoberta empreendido por seu protagonista. Ainda que possa ser lido pelas lentes da metáfora, achei melhor mergulhar sem reservas em sua mistura poética de cotidiano e sobrenatural.

Estive o tempo todo em terreno razoavelmente familiar. Este Murakami se pareceu muito com Caçando Carneiros, minha outra experiência com o autor. Ainda não sei dizer se é o estilo dele ou se esses dois romances, coincidentemente, são irmãos intelectuais.

Minha Querida Sputnik é especial porque Murakami domina muito bem a técnica da escrita em prosa. A estrutura se assenta sobre dois motores poderosos, romance e mistério, fatores que são catalisados porque, na prática, não se realizam dentro do campo de visão do leitor. Pode ser que não se realizem em lugar nenhum. E não interessa, pois a parcela da visão que cabe a K e que, acredita-se, tenha sido passada integralmente ao leitor, é fascinante.

Sobre os supracitados motores, Murakami acrescenta doses generosas de referências pop de diversas épocas. Sua habilidade nesta tarefa é tamanha que as referências se mesclam ao texto e entre si num amálgama extremamente convincente. O próprio título se compõe da mistura de duas referências pop que se tornam uma pelo espontâneo de um desencontro charmosamente desajeitado durante a conversa que levará duas personagens à descoberta do amor.

Minha Querida Sputnik é, na verdade, sobre indivíduos, e não sobre casais. Os encontros entre as personagens servem apenas para disparar ou acentuar as histórias pessoais, para redimensionar ou dar a efetiva dimensão ao que vai dentro de cada um. Murakami, mais uma vez demonstrando sua habilidade, retoma elementos sobrenaturais como o doppelgänger e a simetria potencialmente simétrica e assustadora dos espelhos para ilustrar a busca pelas partes que nos foram roubadas por traumas do passado. Exercita também o fascínio das sagas de heróis que atravessam oceanos e mundos para encontrarem a si mesmos, exclusivamente.

A coesão da técnica de Murakami resulta em uma atemporalidade que não deixa dúvidas. Ele conhece o tempo e navega por ele sem hesitações ou limites. Murakami, desconfio, não é deste mundo.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s