John Kenneth Galbraith: O Novo Estado Industrial

John Kenneth Galbraith
Todo mundo tem um amigo ou um colega que acha inevitável que o mundo seja como é. Eu não diria que todo conservador pensa assim, então eu diria que este tipo seria um conservador do tipo fatalista. O conservador fatalista considera o status quo imutável; sua imobilidade social embasa este seu pensamento. Ele vai para Miami, afinal todo mundo vai e traz de lá uma mala cheia de camisas de cavalinho. E tênis da Nike com aquelas molas horrorosas. A filha do conservador fatalista tem festa de primeiro ano com tema das princesas da Disney, pois sexismo é algo que se aprende de berço. Alguns dirão que a Disney está mudando sua abordagem, mas eu tenho lá minhas dúvidas: estão mudando de abordagem porque estão se conscientizando ou porque se trata de um movimento de mercado?

Galbraith trata neste de livro de mercado e como este último é ilusório quando se trata de grandes corporações. Assim como a riqueza do mundo vem se concentrando brutalmente nas mãos de meia dúzia de ricaços intergalácticos, o poder econômico se acumula por trás dos prédios envidraçados de corporações sem rosto. O Novo Estado Industrial é um livro denso, que precisa ser lido aos poucos. As ideias dentro dele são concentradas. Galbraith é um professor brilhante, consegue trabalhar os tópicos pesados da economia até vertê-los em parágrafos simples e reveladores. Levei alguns meses saboreando este livro, escrito por este cara que, além de tudo, é um escritor talentoso. Suas frases nos carregando em redemoinhos onde se mesclam ironia e graça, nos revelando, apenas quase em cima do ponto final, sua verdadeira natureza. Valeu reler tais frases, deixá-las desmanchar-se na mente.
O livro abastece o leitor de tudo que ele precisa saber para se inteirar do tópico central de Galbraith aqui: o mercado é uma força que existe apenas para pequenos negócios. As grandes empresas não podem se dar ao luxo de navegar por mares incertos, é necessário um sólido controle da demanda. Para isso, as empresas contam com a ajuda de sindicatos e governos, todos envolvidos em um teatro de pantomima que serve numa bandeja prateada ao consumidor um sucedâneo bem embalado de livre arbítrio. A ilusão é poderosa, ela infla o peito do cara de quem eu falo no primeiro parágrafo. Galbraith traça um caminho através da história que desemboca na realidade atual, que é destrinchada com riqueza de detalhes. O conteúdo, passados quase cinquenta anos, segue atual.
Galbraith se propõe a explicar tudo o que você queria saber sobre corporativismo mas nem sabia que poderia perguntar. Ele explica em rápidas pinceladas porque a grande corporação considera educação algo essencial, desde que seja educação que possa ser utilizada para manter a corporação viva. Ele explica porque as grandes corporações não se interessam em gerar lucros para seus acionistas; esse e outros cânones da economia clássica são desmontados com elegância e consistência.
Se não existe um mercado a ser agradado, porque o Google se importaria tanto em capturar nossas informações pessoais: Eu brincaria com a noção de que o Google esteja apenas nos dando um simulacro de poder próprio, como o diabo que se compraz em nos convencer de que não existe. Outra possibilidade é que a grande corporação esteja apenas refinando o controle que sempre exerceu. A inovação contínua serve à sobrevivência deste leviatã monstruoso que se esconde por trás de aço, concreto e vidro e nos consome os dias para a manutenção de sua existência.
O conservador de qualquer matiz declara odiar a interferência do estado nos assuntos da iniciativa privada, mas adora um dinheiro do estado para financiar seu projeto de pesquisa e desenvolvimento, delira em sonhos molhados quando o governo apresenta uma demanda de produtos altamente tecnológicos para bombardear civis em países que tenham petróleo. É como o caso do que veio a ser chamado de escola sem partido aqui no Brasil; trata-se na verdade de uma escola de um partido único, o da corporação. Casos escandalosos de governos salvando bancos privados ainda estão frescos nos jornais e não faz muito tempo que o governo da Alemanha foi extremamente leniente com a Volkswagen por ocasião do escândalo da fraude dos motores TDi. Está claro a quem o governo de nossos países serve; caso o leitor não tenha percebido, uma pista: nosso governo não serve a nós, eleitores.
Os acionistas deixam de ficar mais ricos por conta da corporação não buscar a maximização de lucro? Não. O dinheiro segue brotando das entranhas da empresa, os dividendos são pagos. Os de cima sobem, não há risco: a corporação vai se manter viva a todo custo, seu capital realimenta sua operação e sempre sobra para pagar os financiadores. Produtos complexos são criados por estruturas tecnológicas complexas, não há como um único ser humano compreender todas as camadas de um produto como um avião de seiscentos passageiros ou artefato de guerra que voe em velocidade superior à do som. Engana-se quem pensa que Galbraith defenda o fim da corporação. Ele sabe que a única forma de alcançarmos certos objetivos sociais se dá pela tecnologia; o que se questiona é a proporção da nossa existência que foi devorada pelo sistema de planejamento em sua sanha de sobrevivência a qualquer custo.
Depois de embasar e expor seu caso, Galbraith passa a exortar a classe científica e intelectual a colocar a corporação em seu lugar correto, como um servo da humanidade, e não o contrário. A corporação precisa de mentes para executar o trabalho complexo a que se propõe, e essas mentes podem se abrir para além dos cânones ultrapassados e conformistas dos economistas clássicos. Este volume segue atual e creio que isto não deve mudar tão cedo. Testemunho o terceiro vice-presidente capacho ser empossado para atender às demandas das grandes corporações. A compreensão de como a economia funciona é essencial para questionarmos nossos grilhões e, quem sabe, sobrepujá-los. Galbraith é leitura essencial para qualquer um que se proponha a questionar nossos tempos.
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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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