Jon Krakauer: Where Men Win Glory

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Este livro contém trechos onde se apresentam sérias restrições às ideias de Francis Fukuyama. São trechos curtos, mas se referem aos pontos cruciais onde o autor discute a modelagem de seu protagonista, Pat Tillman, contrapondo os ideais masculinos de Frederico, o Nietszche, e do inacreditável macho amolecido pela democracia ocidental de Fukuyama. As considerações de Krakauer não chegam a se configurar em um ensaio propriamente dito, mas complementam e arrematam de forma certeira as quatrocentas e poucas páginas cinematográficas das tramas de mentiras que cercaram a morte de Tillman, alçado à ingrata celebridade de herói do primeiro governo do Bush mais novo.

Ainda que o autor não se preste a fazer a chacota de Fukuyama que a obra deste merece, este livro mostra um escritor mais engajado com as causas de esquerda do que aquele que eu encontrei em No Ar Rarefeito. Sei que criticar o marionete criador do conceito de fim da história é um clichê batido da esquerda no século XXI mas, diferente do rock’n’roll, I like it. Krakauer em nenhum momento se posiciona politicamente de outra forma do que a de um defensor da democracia. Se há críticas ao governo de Bush filho e seus acólitos, elas se concentram na mentira que construíram em torno da tragédia da família Tillman.
Pat Tillman era um rapaz idealista cuja imaginação foi capturada pela propaganda republicana pós-onze de setembro. Ele estava razoavelmente bem posicionado como jogador de futebol americano, namorava uma menina que amava e era correspondido, tinha dois irmãos que o amavam e pais que o admiravam. Ele se alistou no exército norte-americano para morrer de forma absolutamente idiota no Afeganistão. Krakauer conta a história em lances eletrizantes, traçando paralelos com a história de outra soldado norte-americana, capturada no Iraque. Ambas as histórias estão recheadas de mentiras governamentais, sórdidas e baixas.
Krakauer pesquisou profundamente as histórias, passou uma temporada no Afeganistão, leu muito sobre a história do local e sobre sua longa tradição de maltratar seus pretensos invasores, em diversas eras, com uma dolorosa guerrilha. Sua homenagem a Tillman é tocante, seu Pat é construído a partir de vários pontos de vista até que o leitor consiga entender as intrincadas motivações que levaram um rapaz tão inteligente a se propor um desafio tão estúpido. Consigo traçar fortes paralelos entre Tillman e o protagonista de Into The Wild: rapazes altamente capacitados e encantadores que se lançam em jornadas heroicas desproporcionais às de seus pares, jornadas que só podem resultar em aniquilação. Se eu acreditasse em deuses, poderia dizer que seriam simples punições às atitudes ousadas deles, mas o livro deixa claro que se trata de um triunfo da vontade humana e não forças mágicas de outras esferas.
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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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