Alain de Botton: Religião para Ateus

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A ioga é parte de um conjunto de técnicas que visa pavimentar o caminho de um leigo até alcançar um certo nível de realização espiritual. Boa parte dos praticantes de ioga em academias deve ignorar isto, ou mesmo reconhecer este fato de forma um tanto despreocupada. Entretanto, esta postura não previne tais praticantes de receber os benefícios de uma prática saudável como a ioga. Da mesma forma, eu não preciso ser um crente para apreciar a beleza de um edifício construído para fins de prática religiosa; eu gosto especialmente da forma como a perspectiva imensa do universo se apresenta em uma catedral, por exemplo. Crentes provavelmente dirão que é a grandeza de seu deus a se apresentar ali, mas é claro que, antes de qualquer convicção religiosa ou filosófica, numa catedral houve um arquiteto, ou vários, pensando numa forma de criar uma obra com o exato objetivo de fazer perceber a perspectiva ínfima de nós, seres humanos, diante de um plano infinitamente maior.

O primeiro parágrafo deste texto encerra dois exemplos que me ocorreram durante a leitura de Religião para Ateus, do sempre provocativo Alain de Botton. Ele, claro, discorre sobre os tópicos com graça e precisão maiores do que eu poderia aspirar a, como é de praxe em seus escritos. Botton analisa especificamente três religiões, cristianismo, judaísmo e budismo em busca de práticas que o mundo secular perdeu por, provavelmente, puro orgulho.

As religiões criaram instituições em torno de si e essas instituições cresceram amparadas em técnicas e procedimentos, criando réplicas de suas matrizes em todos os cantos do mundo sem perder a essência do que pregam. O aprendizado dos cânones das religiões, mesmo os mais absurdos, é facilitado pela aplicação de técnicas sedutoras de oratória e repetição de conteúdos, que surgem diante dos fiéis num formato palatável e encantador. Porque nossos catedráticos não são assim tão carismáticos quanto, por exemplo, pastores de uma igreja batista? Porque cismam em se manter incompreensíveis e chatos, tremendamente chatos? Para cada prosador habilidoso como Galbraith há dezenas de contrapartes crípticas e virtualmente incompreensíveis. A verdade é elegante, mas a academia a veste de camadas e mais camadas de roupagens desnecessárias, gerando confusão e frustração. Ainda que haja alguns professores efetivamente incapazes, o que me ocorre é que a maioria simplesmente não quer ser compreendida, confundem simplicidade com facilidade, e facilidade tornaria, na visão de alguns desses professores, sua matéria banal. Este é apenas um dos aspectos tratados no livro.

Botton sugere que o mundo secular retome o que ele deixou para trás por puro orgulho e que foi alegremente adotado pelas religiões. Estas sabem se preocupar com a miséria de forma exemplar, algo que as cátedras acadêmicas simplesmente desprezam, não julgam digno de suas elevadas preocupações. Ele apresenta várias formas pelas quais o espírito ateu pode retomar técnicas para apaziguar e tranquilizar sua alma, conduzindo sua mente de forma mais saudável através dos meandros da existência.

O autor, felizmente, escreve um rápido resumo de suas intenções na conclusão do livro (página 260 da edição brasileira, editora Intrínseca), o que vai poupá-los de maiores delongas em meu presente texto:

(…) Felizmente para os conceitos examinados aqui, nenhum deles é novo. Eles existiram durante a maior parte da história humana, mas foram sacrificados de modo apressado alguns séculos atrás, no altar da Razão, e injustamente esquecidos por mentes seculares com a aversão a doutrinas religiosas.
O objetivo deste livro foi identificar algumas das lições que podemos extrair das religiões: como gerar sentimentos de comunidade, promover a delicadeza, cancelar a atual tendência a veicular apenas valores comerciais na publicidade, selecionar e fazer uso de santos seculares, repensar as estratégias das universidades e nossa abordagem em relação à educação cultural, redesenhar spas e hotéis, reconhecer nossas necessidades infantis, abdicar de parte do nosso otimismo contraproducente, adquirir perspectiva por meio do sublime e do transcendente, reorganizar museus, utilizar a arquitetura para preservar valores – e, finalmente, unir os esforços dispersos dos indivíduos interessados na proteção da alma e organizá-los sob o patrocínio de instituições. (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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