Uma fábula

separationHá muito em uma província mais do que distante, havia um país chamado Bracil. Como em uma matrioska, dentro deste país havia uma região chamada Cul. Dentro da região se acomodava, bem no centro, um estado chamado Canto Satarino. Tratava-se de um pequeno estado que compensava sua pouco expressiva extensão com dotes que faziam dele o que mais próximo de uma utopia já se viu. A história deste lugar tão pitoresco foi cantada por gerações e através dos milênios, entoada em inumeráveis idiomas sobre o acompanhamento dos mais curiosos instrumentos musicais. Esta terra de belo litoral e expressivas escarpas era plena de paisagens de encher os olhos; se um humano pusesse seus olhos sobre ela, imaginaria logo que unicórnios e outras criaturas pisavam sobre aquele verde encantador. Ledo engano: não havia criaturas de fantasia em Canto Satarino, mas algo ainda mais inacreditável, a coisa mais parecida com uma utopia em que qualquer criatura viva já tenha sonhado.

As pessoas em Canto Satarino eram extremamente esclarecidas; há quem, sem provas, postule que a Era de Ouro da filosofia grega tenha sido baseada em misteriosas escrituras que um fugitivo satarino teria escondido nas cercanias do Olimpo. São, entretanto, apenas especulações irresponsáveis, até porque algum satarino haveria de fugir de terras tão encantadoras? Não, com certeza são quimeras e tolices. Tudo o que sabemos de Canto Satarino nos veio através de psicografia interestelar, ondas de pensamento que cruzaram os abismos espaciais e foram captadas por médium terrenos.

Assim ficamos sabendo que todos os satarinos, sem exceção, viviam em condições imaculadas de higiene. Os esgotos nem sequer eram assim chamados, pois toda residência contava com sistemas miraculosos que convertiam o que chamamos de dejetos em materiais para agricultura urbana. O governo de Canto Satarino daria inveja aos mais aguerridos nórdicos no quesito transparência. Seus governantes eram criaturas ilibadas e quase celestiais, verdadeiros ascetas, cuidadosos ao extremo com o dinheiro público. Graças a este glorioso governo, a educação era colocada em primeiro plano, os professores recebiam salários dignos de monarcas e eram festejados nas ruas ou por onde quer que fossem. Corrupção era um verbete esquecido nas enciclopédias antigas e os governantes eram, como a população em geral, filósofos, pensadores a quem qualquer um de nós admiraria tanta pela perfeita oratória quanto pelas ideias elevadas.

O povo satarino escolhia seus governantes com cuidado. Nunca se ouviu falar de um satarino que votasse em um candidato em qual houvesse a mínima mácula ou que vendesse seu voto por favores de qualquer espécie. Não, política era assunto sério para esse povo-filósofo. Mesmo as crianças preferiam a arte de esgrimir ideias aos folguedos bobos que se esperaria delas. Exemplo disso era a eleição na capital, onde o custo da campanha de um candidato era irrelevante, onde militantes pagos eram hostilizados nas ruas, onde nenhum vereador indiciado seria votado; aliás, vereadores nesta condição se envergonhariam e nem mesmo se candidatariam. Canto Satarino era um lugar onde todos os cidadãos se mostravam plenamente conscientes de seus deveres, de seus direitos, de suas leis e de sua história.

Esta condição privilegiada se devia principalmente à origem do povo satarino, que imigrou de regiões antigas e mais frias para, com sua genética superior, dominar esta região e plantar nela os pilares do céu na terra. Seria de admirar que este povo e sua região não tivessem um nêmesis. Fato é que a região Cul do Brasil era uma exceção, uma pequena ilha utópica em meio a um país bem maior. Certas partes do Bracil eram povoadas por gente sem escrúpulos, vampiros do trabalho incansável que apenas a região Cul executava. Qualquer semelhança com aquela outra fábula, a da formiga e da cigarra, não é coincidência. Estas outras regiões votavam mal, escolhiam facínoras e calhordas para as governarem e se regozijavam em suas traquinagens, esperando sempre a zelosa região Cul viesse pagar pelos prejuízos que tal vida desregrada trazia.

Os moradores dessas outras regiões eram mestiços, criaturas que não poderiam aspirar à pureza elevada dos genes dos cidadãos satarinos. Seres abjetos e invejosos, preguiçosos e lascivos, viviam de sugar as energias de seus vizinhos dedicados e tão elevados. Sabendo que teriam ajuda, punham-se a fazer filhos e gravar músicas incitando ao sexo depravado. É impossível descrever em tão poucas linhas a baixeza desses que dividiam o Bracil com os satarinos. Que um dia cansaram. Cansaram de não ter valor, cansaram de alimentar tantas almas baixas e impuras. Junto com seus vizinhos perfeitos, os satarinos entoaram hinos onde o refrão deixava claro que a moleza tinha acabado: O Cul é Meu País.

É uma pena, mas os registros sobre os satarinos só chegam até a esta fase de sua história. Há alguns fragmentos, mas nada que possa dar aos estudiosos orientação sobre como tal civilização, modelo para todas as outras em todos os sistemas solares e em todas as galáxias, restou para ser decifrado. Séculos se passarão e os imperfeitos habitantes de nosso planeta ainda estarão buscando conhecimento nesta que foi o exemplo supremo entre as civilizações.

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