Michael Sandel: Justiça

sandeljustica

O discurso dos botecos não raro desemboca em alguma variação da declaração libertária cujo conteúdo poderia ser resumido na frase “tudo é permitido desde que não esteja ferindo o direito dos outros”. Simplificações deste calibre caem bem com bebidas e balcões. A menos que o interlocutor seja enfim confrontado com algum questionamento sólido a suas proposições e responda com a simplificação suprema: “É complicado”. Existe uma forma bem conhecida de emitir tal frase, busca-se um tom compungido, há uma extensão diferenciada em cada sílaba, tudo conspirando para expulsar o desconforto, secretamente solicitando ao interlocutor que se mantenha dentro das fronteiras seguras das discussões inflamadas que realmente não mudam nada, mas antes reafirmam a visão limitada do grupo.

Se você é do tipo que se enfastia com o vazio de proposições dessas discussões infladas e bobas, você precisa conhecer Michael Sandel, professor que leciona o curso Justiça há alguns anos em Harvard. Sandel é um professor do tipo que orgulha a classe, bom o suficiente para que eu o coloque no mesmo panteão modesto onde coloquei John Kenneth Galbraith. Sandel é inteligente. O mundo se abre para ele em fartos exemplos e casos onde ele aplica sua profunda compreensão de pensadores de várias eras. Neste Justiça ele passeia por Kant, Aristóteles, Bentham, Rawls e outros. Caçoa de Friedman; caçoar de Friedman é sempre um bom sinal. Liberais e libertários são questionados e rebatidos com maestria. Mesmo conceitos caros à esquerda são refutados ou, no mínimo, mudados de ângulo.

O resumo dado pelo subtítulo não poderia ser mais esclarecedor; Sandel corajosamente busca o que é fazer a coisa certa. E entrega. Em termos. Ao terminar de ler a última página, antes de entrar nos agradecimentos, percebi que minhas convicções eram tais que, sim, existe uma tal coisa certa a se fazer. Eu me senti preparado para iniciar a busca que me levará a ser este ser humano melhor que faz a coisa certa. Eu não exatamente como. Como diz Alain de Botton em seu soberbo Religião para Ateus, devemos ler mais vezes um livro que nos encanta, que nos sublima certas hesitações, que nos eleva o pensamento. É o caso deste Justiça. É um livro de formação, precisa ser revisitado para que as análises por ele levantadas ecoem dentro de nós a ponto de reverberarem em sintonia com as dúvidas que temos ao nos confrontarmos com um mundo claramente doente.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco, Literatura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s