Niall Ferguson: A Grande Degeneração

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Por qualquer janela do mundo através de qual se olhe, a crise está ali espiando, insidiosa. O modelo de crescimento adotado pela maior parte das sociedades do planeta se apresenta esgotado. Niall Ferguson, historiador e economista, trata deste assunto neste livro chamado A Grande Degeneração. Ele consegue desenvolver bem a base do assunto, focando em fatos históricos e comparando sociedades atuais e do passado. A coisa degringola quando ele se propõe, com seu olhar limitado de liberal de centro-direita, a executar exercícios de futurismo.
Niall Ferguson é um acadêmico famoso, leciona em universidades de prestígio e demonstra conhecimento vasto sobre história, especialmente pelo viés da economia em cada época ou país. Sabe organizar os fatos e domina bem a forma como os apresenta. Partindo do ponto de vista anglo-saxão, ele descreve as glórias da Inglaterra em ambos os lados do Atlântico assim como o espanto que isto causou a Tocqueville em sua peregrinação pelos Estados Unidos da América. Ferguson me trouxe rudimentos úteis como a diferenciação entre civil law e common law que eu, vergonhosamente, mantinha na periferia do assunto. Lerei mais sobre direito de agora em diante.

Ferguson baseia seu texto em um ciclo de palestras que, por sua vezes, dividem sua argumentação em quatro quadrantes, a saber, nações, economia, direito e sociedade civil. Em cada um desses quadrantes ele demonstra um viés diferente da degradação que, nisso concordamos, ocorre no mundo em que vivemos. Ferguson é um liberal que não gosta de ser visto como um conservador, apesar de citar Hayek sem pudores, assim como outros expoentes do pensamento que nos brindou com governos como os de Reagan e de Thatcher. Esta característica do escritor fica nos bastidores durante a maior parte da explanação, durante a qual apenas as provocações baratas demonstram distanciamento dos esquerdistas, mas se derrama em uma torrente de falácias na conclusão.

Onde estão as falhas do raciocínio tão bem exposto de Ferguson? Vou colocar alguns pontos apenas, até porque não acho que se trate de um livro a ser evitado. Oscar Wilde dizia que não há livros bons ou ruins, mas apenas livros interessantes ou chatos, e este definitivamente entra na classe dos primeiros. Cabe aqui apenas o cuidado de manter o espírito crítico e a mente aberta ao que Ferguson tem de bom.

Em um certo momento, Ferguson evoca um belo trabalho colaborativo que foi desencadeado por ele e que resultou em mutirões de limpeza de uma praia onde o escritor mora. Neste trecho, ele argumenta que a sociedade civil foi desmantelada pelo Estado no esforço deste para monopolizar as ações sociais. Ferguson reforça que isso ocorreu bem antes da febre de redes sociais e dá diversos exemplos de como o cidadão deixou sê-lo nas últimas décadas. Ainda que as pessoas tenham se alienado, é leviano colocar toda a culpa no Estado. Para cada campanha furada em que a prefeitura diz para que eu confronte o flanelinha que me achaca e que deixe tudo nas mãos dela, há dezenas de milhares de exemplares de uma apatia que vêm da isolação em que vivemos e do foco de nossas vidas, ou seja, trabalhar como idiotas e consumir loucamente os produtos da grande indústria. O Estado tenta roubar o controle da sociedade para si, mas não precisa se esforçar muito: a população em geral é alienada, vide as demonstrações de paneleiros e os resultados das últimas eleições.

O escritor tenta ainda reduzir os feitos da época em que vivemos. Há uma estagnação econômica? É bem provável. As causas podem ser encontradas, por exemplo, no subsídio aos combustíveis fósseis. Ferguson beira o patético quando exercita um futurismo tolo e infundado ao profetizar que “a energia renovável não é economicamente viável”. Já em 2014 havia mercados em que a energia solar era mais barata do que a de fontes convencionais e o processo segue sendo otimizado. Ferguson, como economista de visão limitada, professa amor pela energia nuclear e deve convenientemente se abster das externalidades desta fonte. Sua visão se mostra igualmente limitada ao defender usinas de carvão com nova tecnologia; há quem argumente que é possível capturar dióxido de carbono da queima de carvão. É uma demonstração cabal de desconhecimento da lei da conservação da energia: carvão e petróleo são formas fósseis de dióxido de carbono capturadas pelo planeta e não faz sentido liberar mais dióxido de carbono para capturá-lo em seguida. A conta simplesmente não fecha.

Ele se perde de vez quando resolve comparar a era gloriosa da conquista da Lua à atualidade em que néscios de seu porte só conseguem enxergar “cento e quarenta caracteres” como uma evolução. Provavelmente eles não estão a par das conquistas espaciais atuais, como o reconhecimento recente do sistema planetário de Plutão, as torrentes imensas de dados sobre Saturno e seus satélites, assim como de outras conquistas da NASA e de outras agências. Ferguson nem imagina que carros autônomos logo tomarão as ruas ou que o carro a explosão está fadado a desaparecer antes do final do século.

O livro, enfim, é uma leitura válida. Ele demonstra que mesmo pessoas inteligentes podem se render às facilidades das propostas da incipiente direita que abunda em todas as localidades. Alguns são raivosos e idiotas devotos ao fascismo, que se divide em ramos igualmente odiosos de racismo, machismo e outras formas de preconceito. Há outros, mais estudados, que se refugiam em teorias quase bem estruturadas para professar uma visão limitada da vida na terra. É interessante estudar a ambos os tipos e estudar a si mesmo, buscar uma percepção mais ampla da realidade, sempre com empatia e visando a justiça. Ferguson, infelizmente, falha nestes quesitos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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