Enrique Vila-Matas: Paris não tem Fim

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Paris não tem fim. Da mesma forma, não têm fim os romances que Vila-Matas vive com Paris neste volume e com a literatura no geral de sua obra. Tomando como ponto de partida o relato que Hemingway escreveu sobre a, provavelmente, mais querida cidade do planeta, o escritor espanhol desenvolve uma manta de retalhos onde se entrelaçam alta cultura, cinismo e a arte de flanar em direção a uma carreira improvável na literatura.

O protagonista de Vila-Matas é uma fruta que nunca cai muito longe da árvore que o produziu. Seu método peculiar de invenção de protagonistas finge entregar uma auto-biografia que nunca o é. Esta confusão serve como aqueles aparatos de aceleração que a NASA usa ao arremessar uma nave em direção a um dado planeta, errando por um triz e assim ganhando uma aceleração nada desprezível. Ainda que picaresco, o protagonista de Vila-Matas sempre enverga uma poderosa personalidade forjada a partir de abstrações inspiradas. Esta gênese se soma à capacidade do escritor de elucubrar delírios de alto nível estético. A erudição infla seus bonecos e eles alçam voos encantadores.

Alguém distraído pode tomar um romance por um amontoado de citações coladas com divagações filosóficas e referências culturais de diversas décadas. Seria uma pena. A torrente de ideias arrasta consigo um protagonista confuso e ensimesmado que não me parece com uma versão jovem e pedante de Vila-Matas, seja lá o que isto possa ser na realidade. O menino escritor-por-vir-ou-talvez-não sofre com a rejeição, a dúvida, a inexperiência, o fracasso iminente, o fracasso futuro, o fracasso passado, os olhares que não entende, as visadas que compreende perfeitamente. Ele convive com a nata de cultura radicada em Paris e pouco interessa se isto é uma invenção ou se é uma relembrança da juventude do autor. Borges surge previsivelmente imponente em algumas passagens para me dar a certeza de que não devo esperar uma linha sólida entre ficção e documentário neste romance.

Em meu breve passeio por Paris conheci diversas das ruas por onde o pretenso sósia de Hemingway se perde. Ou espera se perder. Para encontrar seu romance em algum lugar que não seja a cartilha que Marguerite Duras lhe entrega como resposta às suas dúvidas pueris sobre a construção dessas longas narrativas. Outras ruas de Paris têm nomes tão charmosos que eu já amo antes de tê-las conhecido. Desconfio que nem conhecerei todas. Afinal, Paris não tem fim.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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