Roland Barthes: A Câmara Clara

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Barthes não é um cara fácil e isso não é novidade. A Câmara Clara é um ensaio sobre fotografia onde o filósfo se debruça sobre como esta se qualifica como arte. Devo ter captado metade do que o ultra-ilustrado Barthes registrou nessas quase cem páginas; mais umas três leituras e acho que consigo ter uma visão integral. Ou não. Provavelmente não.

Meu conhecimento prévio sobre Barthes envolve a leitura de artigos curtos dele e sobre ele, e de seu Fragmentos de um Discurso Amoroso. O pensador francês parece saber o nome de tudo. Talvez tenha lido todos os livros que havia para ler. Quando não sabe o nome de algum ente abstrato, tudo bem, Barthes forja um novo nome e toda uma etimologia precoce e, aparentemente, indiscutível. Assim como este meu conhecimento sobre Barthes é meu arcabouço de leituras filosóficas. Um leitor precisa priorizar e as minhas prioridades foram outras. Isto não impede, claro, que eu me meta a ler Barthes ou me impede de tecer minhas considerações. Até porque mesmo um conhecedor limitado de filosofia, tal como eu, sempre consegue pescar algo do um pensador efetivo escreve.

Desta leitura aprendi sobre studium e punctum. O primeiro se refere, são minhas palavras aqui, ao formalismo da fotografia, aquilo que se percebe de forma estruturada, como a técnica, o enquadramento, a luz, a exposição, entres outros quesitos técnicos que nos falam do operator. O segundo é aquilo que cria esta percepção da fotografia enquanto arte, aquilo que punge abstratamente o spectator. Barthes apresenta diversos exemplos para ilustrar, literalmente, suas ideias. Revela-se um ser humano que pensa e, como tal, tem gostos específicos, se emociona com determinados fatores que seriam imperceptíveis para outros observadores. Este livro traz novas luzes sobre a leitura de imagens.

O livro segue por esta trilha de elucubrações, onde Barthes segue aos poucos investigando e formatando sua visão da fotografia enquanto arte. Sua mente vivaz discorre de forma elegante, traz à tona ideias encantadoras entremeadas a doses muito pesadas de formalismo que me escapam e me entediam. Talvez numa segunda leitura esses mistérios se entreguem mim. Por ora, estou feliz em absorver o que me foi permitido. E eis que há uma reviravolta. Barthes se debruça sobre as fotografias de sua recentemente falecida mãe em busca de uma imagem específica onde esteja representado aquilo que punge seu coração. Ele encontra, claro. E discorre sobre o que o punge, como o punge, correlaciona isto com tudo o que falou antes. É bonito. É profundo e bonito.

Todo pensador morre um dia e deixa uma pergunta no ar. Ou mais de uma. No caso deste livro, eu gostaria de saber como Barthes comentaria a hegemonia da imagem como forma de expressão de quase tudo na atualidade. A câmara escura está em bilhões de dispositivos eletrônicos, registrando e observando. As imagens, entretanto, podem ser geradas e combinadas por outros métodos. Barthes fala dos cartuns, mas como reagiria a uma era em que eles foram suplantados, ou complementados, por memes, montagens, mash-ups e outras formas de manipulação de signos e de imagens? Eu não sei. Provavelmente não saberei nem depois das minhas prometidas releituras de A Câmara Clara. O que não muda minha disposição em ler e reler Barthes.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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