Dennis Villeneuve: A Chegada

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Eu admiro Dennis Villeneuve. Eu não saberia o que dizer para ele caso o encontrasse. Eu nem sei se quero ou preciso encontrá-lo. Sou fã calmo, admiro de uma distância segura para ambas as partes. Eu só ficaria muito decepcionado com minha postura se eu descobrisse que, em algum momento, Villeneuve desanimou diante de algum desafio ou de alguma dúvida estética atroz e não houvesse ninguém por perto para chutar o traseiro dele e fazê-lo ir adiante com qualquer ideia maluca dessas que inspira seus magníficos registros em filme.

Gostei de Prisioneiros menos do que gostei de seus antecessores pré-Hollywood. Comecei por Incêndios, história pesada e difícil, rebobinei e fui ao princípio da filmografia do diretor canadense. Gostei quase sozinho do formalismo perfeccionista de O Homem Duplo e me entreguei a dores e torcicolos na tensão intensa de Sicario. Eu sabia que viria algo muito poderoso depois. Responder eu não conseguiria, mas dava para perceber. E também eu pude ler na internet sobre o que Villeneuve vinha bolando; um pouco de ansiedade pode ser válida.

Os chatos que me perdoem, mas A Chegada é um filme perfeito. Ali cada fotograma parece ter sido pensado para causar um determinado efeito e o faz de forma avassaladora em sua sutileza de infinitas nuances. A leveza de Villeneuve encanta como a mão visível do mágico. Seu filme cresce em emoção que vem das profundezas da tela, de algum lugar abaixo, de algum acima. O ponto óbvio de canalização é Amy Adams, claro, mas ele dirige com primor cada um de seus atores.

Doze naves alienígenas sobre a Terra, espalhadas. Seres dentro delas tentam se comunicar conosco. Como quase tudo na vida que vale a pena, exige esforço. Como tudo que é novo e inesperado, exige dedicação, causa stress. Cada personagem na tela está em seu limite desenhado em tons de cinza concisos e perfeitos. Cada aspecto do filme se espelha na elegância dos círculos desenhados em nanquim intergaláctico por nossos visitantes. Imagine que alienígenas invadem a Terra, governos e seus exércitos vão à loucura, e Villeneuve explode apenas um única bomba em primeiro plano de cena. Ele sabe onde o drama realmente ocorre. Ele nos traz para a camada da realidade onde nós, humanos, nos conectamos, esta camada estreita que, para chegarmos aos signos sugeridos pelos alienígenas, teremos de alargar intensamente.

Esqueci de cronometrar, mas creio que eu estava chorando consistentemente aos três minutos de filme. Um choro que tinha fulcro, um ponto de emissão preciso. Mal sabia eu que uma hora e quarenta depois eu seria apresentado a um choro polifônico, como se as lágrimas jorrassem de camadas distintas de mim. A Chegada, o leitor já deve ter notado, é um filme profundamente emocional. Ele mexe carinhosamente com todas as camadas das cebolas que somos, nos desorienta, nos faz olhar para além e depois do que pensamos que poderia haver, nos ensina de novo sobre a maravilha de ser humano, sobre a nossa insignificância, sobre a grandiosidade mais do que épica de nosso universo. Tudo isso aqui, coladinho no seu ouvido, sugerindo poderosas emoções por pequenos gestos, evocando paisagens amplas pelo vazio que elas têm como seu simétrico.

Villeneuve não fez nada disso sozinho. É possível perceber as fontes. Seu cinema ecoa um certo cinema francês. 2001 está lá, Kubrick é um mestre, Spielberg é outro e segue alista. Villeneuve não esconde seus professores, mas tem porte suficiente para tornar cada fotograma seu, seu selo se espalhando pelas cenas como uma inevitabilidade.

Quando iniciam os créditos finais, estou atordoado assim como minha namorada. Penso que o silêncio será logo rasgado pelas banalidades de final de ano, mas me engano. Todos estão abalados, mesmo os adolescentes que eu temia serem barulhentos mas que não fizeram barulho nem com a pipoca, quietos e concentrados durante toda a sessão deste filme hipnótico, que deve ser visto com plena atenção sob pena de perder sua trama de areias sutis como uma ampulheta se desfazendo nas mãos.

Villeneuve não precisa fazer mais nada.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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