Naipaul: O Enigma da Chegada

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Um escritor cinquentão se refugia em uma antiga propriedade, no interior bretão não muito distante de Stonehenge, onde observa a decadência do mundo ao seu redor como uma extensão da morte que neste momento percebe que irá chegar em algum ponto mais adiante.

Esta é a terceira obra de Naipaul que leio, sem que ele perca, para mim, a pecha de escritor auto-biográfico. Longe de considerar como um defeito, eu prefiro olhar pelo viés da experiência que esta abordagem proporciona. O Enigma da Chegada parece o caderno de estruturação do que poderia ser um romance de ficção. Para tanto, bastaria Naipaul reposicionar algumas pessoas e alguns locais, talvez o próprio tempo do romance, traçar uma linha agressiva de organicidade, distanciando assim a obra de si. Este que se poderia chamar de desleixo do autor permite que o leitor tenha acesso aos recessos ocultos, aos camarins esfumaçados onde se forja a literatura. Ainda que existam gênios escrevendo, eles ainda precisaram sentar em cadeiras e suar muito para completar seus livros.

Naipaul me parece muito novo para ter tantos cacoetes como foram impressos neste volume. Como um velho, ele se repete conscientemente; ele revisita algo que disse anteriormente, informa ao leitor que lembra de já ter falado sobre este algo e deixa no ar a pista de que voltará, a qualquer momento, a remoer o mesmo assunto. Pelo mesmo viés de antes. Este cacoete eu não percebi nos outros livros dele que cheguei a ler, então me ponho a imaginar se Naipaul estaria reforçando o sentimento de terceira idade iminente ou se trata-se, como desenvolvi no parágrafo anterior, de um bloco de texto cru, que deveria sofrer camadas e camadas de interferências de editores e de leitores críticos antes que fosse para as impressoras.

Ele me leva a crer que se trata da primeira opção quando tropeça em outros costumes típicos de gente idosa, como analisar excessivamente, buscando insistentemente conclusões a partir das ações das pessoas ao seu. Este, porém, é o exercício do escritor: constuir a ficção a partir de seus modelos reais, divagar sobre suas cobaias, construir os pedaços que estão faltando, que não se apresentam ao imediato escrutínio do observador. Bom, cacoete ou recurso de narrativa ficcional, cabe ao leitor tirar suas conclusões. Eu fiquei razoavelmente satisfeito de ter ficado em dúvida.

A morte envolve tudo o que é narrado neste livro. O autor havia perdido sua irmã e as incertezas da vida vieram juntar forças à certeza da morte, abalando-o. Sua transitoriedade se estampa nas vistas que ele tem do paraíso rural que ele pensava ter encontrado ao buscar refúgio. Vãos pensamentos. O espaço que ele recebeu, num primeiro momento, logo deixa de existir. As paisagens e as personagens que o autor pensavam ter estado ali desde o princípio dos tempos eram peças transitórias sucedendo-se em um contínuo de mudanças implacáveis. É a idade, a percepção da finitude, que transforma a percepção, levando o autor a sentir que mudança é morte. Credito isso à sensação de obsolescência que nos assola tão logo ultrapassamos certa idade. Sentir isso e ainda prosseguir é um desafio que nem todos conseguem encarar.

O Enigma da Chegada é um livro recheado de momentos bucólicos, em quais a lente do autor se detém para extrair deles os mínimos significados. Todas as narrativas, todas as pequenas histórias do nosso cotidiano, elas nos permitem avaliar nossos valores, nossa ética. Os épicos podem trazer outros vieses, podem nos fazer parar e pensar em algo que passaria batido, mas as pequenas batalhas dos pequenos também podem ensinar muita coisa. É aqui que este livro de Naipaul encontra sua força. Por mais simplórios que possam parecer suas personagens, este é mais um épico que busca desvendar os mistérios da morte.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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