Os livros de um lapso

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Meu computador portátil falhou em algum dia dos últimos de dezembro de 2016. É de conhecimento da maior parte das pessoas os périplos pelos quais passa o consumidor neste caso e nem posso reclamar demais dado que já utilizo a mesma máquina, com uma peça substituída, para escrever este texto. Escrevi nada, mas li em quantidades invulgares diante de meu registro prévio. Faço aqui uma pequena resenha de cada volume, só para não perder o costume.

Alain de Botton: Notícias

O pensador suíço prossegue fiel ao seu objetivo de mostrar como as criações humanas podem, pasmem, ser usadas para ajudar a humanidade, pelo menos. Desta vez ele foca nos noticiários, inicialmente desmascarando o mecanismo capitalista por trás do que se escolhe apresentar em telejornais e outros formatos de transmissão de algo que convencionamos teimosamente chamar de notícias. Num segundo momento ele permite ao noticiário que se redima. Se este quiser, é claro. São ideias algumas relativamente triviais mas a maioria provocadora e factível de implantação. Se nós quisermos que o noticiário mude, claro.

Charles Dickens: David Copperfield

A edição priomorosa da defunta Cosac & Naify é uma bela desculpa para retomar meu tão distante gosto por Dickens com um de seus livro que não li. As personagens são unidimensionais, mas que se dane, Dickens poderia ensinar muito escritor atual a descrever o caráter de uma pessoa através de seus atos e não pelas considerações diretas do autor. Foi o que mais me marcou nesta leitura, algo como uma lição de qual vou lembrar por um bom tempo. As coincidências exageradas não poderiam ficar de fora em um Dickens que se preze, nem a descrição primorosa de sofrimentos e dores que se enfeixam em finais quase felizes dentro do que foi possível. Os artigos que completam a edição complementam o texto original, colocando luz sobre pontos obscuros e enriquecem nossa visão do livro e de sua época.

Yuval Noah Harari: Sapiens

Sapiens reporta o caminho do homo sapiens até o momento com base no conhecimento científico mais recente. Sua escrita fluente e suas assertivas dolorosas tornam a leitura uma corrida alucinante; é um livro difícil de se largar antes de finalizar sua última página. Harari lança luz sobre nossos mitos, colocando no mesmo balaio abstrações humanas como cristianismo, capitalismo, direitos humanos, budismo, comunismo e dinheiro. Seu raciocínio me levou a conclusões nada triviais. Serve para nos fazer entender nossa época e para nos dar a certeza de que nada nesta vida é previsível ou mesmo faz sentido.

Alan Pauls: A Vida Descalço

Nossa relação com a praia, principalmente quando moramos distantes dela e nossas visitas são eventuais, durante períodos longos nas férias, é o tema deste volume rápido. Pauls ensaia sobre diversos assuntos que emanam desta condição tão rica em facetas. Ele usa livros e filmes como pedras de referência em sua jornada pessoal por uma fatia de passado de qual brotam sal, considerações infantis, sexo, amor, tudo emoldurado por absurdas localidades praianas que só deixam de ser desertas por períodos curtos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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