Marcelo Perdido: Inverno

Inverno é o segundo disco de Marcelo Perdido e minha introdução ao seu mundo. A ilustração da capa me faz ter vontade de possuir este disco em formato vinil; iria direto para a parede da minha sala. O conceito da capa se espalha, faz morada em cada uma das faixas. Como os mamíferos representados, as canções de Inverno servem para nos aconchegar, nós que estamos tão machucados de nossos respectivos cotidianos.

O estilo é uma revisitação do folk. Todo o cuidado foi tomado para manter a sonoridade calorosa dos registros dos anos setenta. Violões são constantes, com eventuais intervenções de rabecão e violino, alguns baixos e nenhuma percussão no sentido tradicional de haver uma bateria fazendo o que baterias fazem. Timbres eletrônicos enriquecem algumas passagens.

As letras são introspectivas. Marcelo analisa a si mesmo, procura ser uma pessoa melhor, se deprime, se fecha, tenta de novo ser uma pessoa melhor, como todos nós. Ele tenta escapar da metrópole com qual sempre sonhou, se perde no tempo ao tentar lembrar da cidade pequena idealizada a qual volta apenas em sonhos.

O vocal é competente, faz jus às boas letras, com eventuais esquisitices, necessárias para criar momentos de estranheza marcante tão válidos quando se propõe a fazer uma música que fala para dentro de nós.

Marcelo nadou nas águas da música brasileira pregressa, águas de onde saltam, em certos momentos, referências prateadas como em Como Ser Feliz Só, onde o silêncio do amante ecoa aquele mesmo que Raul Seixas já apontava em Gita. Saúde é uma faixa curta e irônica, trata deste ente como se estivesse fora do vivente, com interpelações angustiadas que deixam claro o quanto é difícil deixar de lado os estímulos óbvios do mundo urbano para encontrar a si mesmo.

Em Florianópolis o verão já dá sinais de que acabou, apesar do bafo úmido dos últimos dias. Dentro dos escritórios o ar condicionado funciona a todo vapor, gelando os tornozelos de quem, como eu, vem trabalhar de bermuda, então já dá entrar no clima deste disco. Na verdade, não precisa esperar a chegada da estação, o Inverno já mora, desde sempre, dentro de nós.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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