James Mangold: Logan

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Logan é, mais do que um filme de super-herói, um faroeste distópico que poderia ter sido escrito pelo Cormac McCarthy. A intenção é declarada pelas citações e pela ambientação. A ausência de uniformes em cores berrantes, já ridicularizados no primeiro volume das aventuras cinematográficas dos X-Men, é reforçada: neste ainda havia versões negras e discretas, naquele só resta a iconografia da camiseta regata do personagem título.

Como em McCarthy, talvez especificamente A Estrada, não existe expiação que não seja a morte. O confronto do protagonista com um Doppelgänger deixa claro que não há mais espaço para o primeiro mesmo que ele seja gestado pelos desígnios modernizantes de uma ciência corrupta. O vilão principal, como em um faroeste arquetípico, é movido pela ganância e seus capangas, os carniceiros, motivam-se por uma ganância derivativa daquela de seu chefe, misturada pela vontade, de obedecer ao mais cruel, que caracteriza os fanfarrões. Os vilões, apesar de dominarem o ambiente, agem como se soubessem que se tornaram tão obsoletos quanto o carcaju que rosna, fraco e sem direção, suas feridas crescentes.

Curioso é que os carniceiros estejam presentes apenas para serem decapitados ou eviscerados ou mortos de alguma outra forma pelo protagonista ou por algum dos caras bonzinhos. Apesar da distopia, é claro quem são os caras bons, ainda que um ou outro tenha perdido o controle de seus poderes matando amigos e outros inocentes. Que os carniceiros caiam como moscas é sintomático: há poucas pessoas com quem se deva importar neste sombrio 2029. As agruras de um século novo devoraram suas promessas, restando apenas a selvageria e a desesperança.

Ao homem branco, quando mocinho, cabe o papel da culpa e a sina de tentar escapar dela pelo autoflagelo; quando bandido, as coisas são mais fáceis, basta deixar os instintos baixos comerem soltos. Aquele que talvez seja o único homem puro é o fazendeiro negro, com sua família calma e acolhedora, que precisa lutar contra mais um grupo de homens brancos gananciosos que maltratam a mãe terra para extrair dela essencialmente mais dinheiro sujo. As mulheres são maternais e heroicas, seres que se apegam com ferrenho amor à coadjuvante principal que, é notável, precisa de muitas aulas de etiqueta e horas de terapia. Muitas mesmo.

A metáfora de escapar dos EUA é um símbolo plenamente abstrato, só compreendido e aceito pela nova geração, como naquela passagem entre as montanhas houvesse uma barreira física. Um dos vilões, num diálogo desnecessário, incita a que se impeça as crianças de atravessarem esta fronteira, mas do outro lado, para os espectador e para os velhos obsoletos, só há mais árvores e montanhas como há do lado dos EUA. Se existe uma alegoria, não é uma de ordem política, mas sim um fechamento de ciclo na própria versão Fox dos X-Men. Eles tentaram, mas o jogo sempre pareceu forçado. Como Logan, talvez o que busquem é apenas uma última luta, uma que valha a pena, pelo menos.

Logan expõe uma dificuldade que, a despeito da quantidade imensa de filmes de super-heróis, ainda não foi resolvida: como mostrar poderes que agem à distância. Nem falo dos uniformes, que são problemáticos por conta da representação egocêntrica exasperada a que servem, mas de crianças que sopram um vento gelado ou que são tele-cinéticas. Os poderes de contato, como os de Logan e de X-23, sempre renderam melhor na tela grande do que raios ou ventos. Este filme deixa claro como as coisas funcionam muito melhor quando um filme de super-herói se despe do que, paradoxalmente, é sua própria essência.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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