Leonard Cohen: A Brincadeira Favorita

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Há pelo duas linhas temporais alternativas em que Leonard Cohen não consegue publicar este que foi seu primeiro romance, escrito antes do cantor canadense se tornar a estrela que viria a ser. Na primeira delas e a mais bonita, Cohen imediatamente percebe que tem em mãos o roteiro e as frases para um álbum conceitual, possivelmente um duplo, dois vinis gordos e sarados numa capa de cheia de letras, fotos suas e algumas ilustrações vagas. Na segunda dela, o fantasma do jovem escritor judeu, aquele que tira sarro de si mesmo e que trepa incansavelmente, viria à tona da água em algum pesadelo e teria o rosto de Philip Roth, dizendo “larga disso, mané“; ela é triste porque Cohen poderia levar algum tempo para se recuperar e, bem, tornar-se o que ele estava destinado a ser.

Há algo de experimental em A Brincadeira Favorita. A narrativa atravessa a passagem do fim da infância até a juventude inicial, pescando pérolas de outras épocas, indo para a frente e para trás no tempo como só a canção de estirpe onírica permite que se faça. Pai morto precocemente, mãe que demanda atenção em doses impossíveis, o herói desta epopeia semi auto biográfica é forçado a amadurecer cedo demais; ainda que seja forçado, ele não amadurece. O tempo que leva para perceber as coisas como funcionam, do que gosta realmente, ou mesmo para perceber que um amigo não precisa ser um seu xifópago para ser amado, as mulheres pelas quais passa e que sofrem com ele as agruras de uma educação sentimental experimental num mundo em revoluções longínquas.

Cohen cunha cerca de duas frases fantásticas a cada três páginas, embevece o leitor com amostras de uma arte que não se realiza nas paginas impressas, que pede uma voz para entoá-las. Ele esquece de deitar o fio condutor da história por vezes, delicia-se como o leitor momentaneamente faz, fica algo preguiçoso quando dele se exige que costure uma trama, que realoque os acontecimentos, que arrume a sala. Não que seja uma experiência ruim, é antes uma percepção reafirmada constantemente de que o autor deveria estar fazendo outra coisa. Ainda bem.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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