A guerra de sempre

afterwar

Passei algumas semanas me horrorizando com o quão longe o ser humano pode ir quando se tratar de odiar. Foram algumas centenas de páginas de Niall Ferguson descrevendo e comentando o horror das guerras que atravessaram o século XX. A Ferguson não agrada a divisão estanque entre primeira e segunda guerra mundial; ele postula que um conjunto de conflitos se inicia junto com a decadência do ocidente, processo que se torna claro logo após a virada, ali por 1904. Dali em diante, a mesma guerra vem apenas mudando de máscara ao longo dos anos, matando populações diferentes ao longo do que eram os territórios dos impérios do século XIX. Qual a receita para uma guerra? Segundo Ferguson, três ingredientes: desacordos étnicos, instabilidade econômica e decadência de impérios.

Os impérios giram rodas monstruosas da conquista, distribuindo violência e opressão em seu caminho, mas engana-se quem pensa que a maior dose de violência ocorre na construção do império; a besta se libera justo quando um cadinho de cozimento a pressão se rompe após anos de ódios reprimidos em querelas bárbaras. A instabilidade econômica insufla, por sua vez, os ódios comezinhos que as épocas de prosperidade, conquistadas ou forçadas contra a vontade da população, criando cenários como dos gays sendo caçados na Chechênia, do separatismo sulista, ou dos mexicanos sendo murados.

Como num filme de horror de sustos baratos, pensávamos que havíamos deixado o monstro para lá da virada, ele tinha ficado preso nos século XX, e só teríamos de lamber as feridas e tentar conversar. Só que não foi assim. O pretenso fim da segunda guerra mundial marcou apenas a mudança de cenário da batalha entre as potências, que passaram a batalhar no Vietnã, na Coreia, na América Latina, na África, nos Balcãs, no Oriente Médio. Agora mesmo elas lutam através de marionetes na Síria, e ainda há quem defenda um lado ou outro do que foi chamado de Guerra Fria. Um idiota embotado como Stálin, um paranoico que só confiou em uma única pessoa durante toda sua vida e esta pessoa calhou de ser um austríaco de bigodinho. Kennedy, um néscio boa pinta que só não pôs a maionese a perder durante a crise dos em Cuba por pura sorte. Mas ambos inspiraram e ainda inspiram ideias românticas. Pura idiotice.

Mesmo um país dito multicultural como o Brasil sustenta um clima tenso. Eu poderia exemplificar usando um certo deputado federal que defende liberação de armas e que sustenta uma visão simplista do que seja o crime, visão esta que só não é mais limitada do que as ações que a criatura propõe. Falemos de algo um tanto mais sutil, os conflitos entre taxistas e motoristas de aplicativos. Conheço pessoas de ambos os lados da contenda. Sabe-se de longa data do comportamento de gangue exibido por muitos taxistas. Há quem reclame do oportunismo dos motoristas particulares de aplicativo. O buraco, entretanto, é mais embaixo. As licenças para quem deseja operar um táxi são envolvidas por camadas e mais camadas de corrupção, além de que são caríssimas, tornando-se um fator de custo absurdo para quem vive de dirigir um táxi. Do outro lado do espectro, algumas empresas oportunistas que enxergaram um nicho de mercado viabilizado pela tecnologia e pela incrível incompetência dos governos locais em fornecer um sistema de transporte coletivo decente. Tais empresas sugam o sangue de seus motoristas, que se acham empreendedores, mas que são pouco mais do escravos, como Scott Adams retratou através de seu personagem Asok da tirinha do Dilbert.

O palco está armado para uma batalha idiota entre cidadãos comuns que encontram o inimigo em seu semelhante e não no local onde deveriam procurar, entre os poderosos que lucram vendendo as máquinas de morte, com a reconstrução das cidades destruídas, monstros que usam a guerra como motivo para dominar as massas de modo ainda mais ferrenho do que antes.

Eu não desejo ser mal interpretado: o conflito entre motoristas de Uber e taxistas não chega aos pés de guerras civis e genocídios do presente e do passado e aparentemente do futuro. Uso esse confronto como analogia do que acontece em conflito distantes geograficamente. A economia do país vai mal, há muito desemprego. Desempregados usam seus carros para tentar conseguir alguns caraminguás, taxistas perdem seus clientes para a crise e talvez também para os motoristas de aplicativo. Ressalto que não estou comparando a qualidade dos serviços, até porque não sou usuário de nenhum, mas eles têm em comum o fato de que, hoje, são motoristas desesperados tentando achar uma fuga da crise em meio a uma estrutura social e urbana que simplesmente faliu. Simplificar tal conflito tomando um lado na contenda é uma atitude preguiçosa e ineficaz. Os barões da indústria não se importam e espero realmente que nenhum motorista de aplicativo tenha tatuado o símbolo de seu intermediário virtual. Logo motoristas serão desnecessários, taxistas e motoristas de aplicativo serão obsoletos de qualquer forma; de que adiantar lutar uns contra os outros?

Serei uma voz no vazio, claro, como tantas outras no passado e no futuro. As guerras do mundo continuarão, o ódio em borbotões saindo de suas gargantas em chamas, seu fedor de pólvora e óleo, matando e destruindo tudo que é livre e sensato. Quero aproveitar enquanto tenho uma voz, enquanto vivemos em uma sociedade democrática, para lembrar o quanto é bom viver assim.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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