Famintos e Furiosos

deliveryboy

Eu já pedi muita comida pelo telefone. Pizza, China in Box, japonesa daquela que tem câmera online mostrando o cara preparando seus enroladinhos, comida italiana, mais pizza, provavelmente pizza foi o que mais pedi pelo telefone. Eu não cheguei a rivalizar com os protagonistas de Big Bang Theory, mas uma vez por semana ou por mês, não guardo essas coisas, eu pedia rango pelo telefone.

Eu parei. Assim como parei com a pornografia. De certa forma por razão similar. Alguém acaba se machucando, alguém acaba sofrendo, alguém vai ter um emprego ruim, muito ruim, se é que dá para chamar isso de emprego. Eu lembro de ter pedido um botijão de gás certa feita, algo inevitável no antigo muquifo e até eu comprar meu fogão de indução. Aquele botijão foi embora de casa com metade da carga. Nunca pedi água de garrafão, até porque filtro na torneira é uma decisão simples e barata. E que evita os males da entrega por motocicleta.

A comida pedida pelo telefone, que aqui abreviaremos como CPPT, raramente é saudável para quem come. E muito menos para quem a transporta. Não sei o que dizer de quem a produz, não fiz muita pesquisa para este texto. Perdão. A CPPT apresenta uma margem de lucro bem baixa se considerarmos perdas, custos fixos e variáveis, sazonalidade, moda, entre outros fatores. Desta forma, a tendência a cortar gastos é natural e ela ocorre onde a mão de obra é farta, ou seja, sobre duas rodas propulsionadas por um motor 125 cilindradas ou similar.

O indivíduo que pilota essas máquinas infernais tem de entregar a CPPT muito rapidamente. Clientes estão apressados e com fome, os endereços nem sempre são claros, o trânsito não costuma ajudar, o pagamento por entrega é baixo, etc. Todos esses fatores concorrem para que o entregador de CPPT seja um grande risco para todos no trânsito, incluindo a si mesmo. Ultrapassagens arrojadas, atalhos inimagináveis, manobras marotas, xingamentos pouco elaborados, tudo isso é rotina para o profissional da entrega rápida.

No momento em que eu termino de fazer um pedido de CPPT, é como se eu fosse um daqueles trabalhadores romanos abrindo os portões de uma arena, liberando os leões para devorar membros de alguma seita religiosa obscura ou apenas meus desafetos ou ainda simplesmente cidadãos cujos berros soassem bem em meio aos ruídos envolventes da orgia alimentar de felinos de grande porte. Toda vez que um desses entregadores passa por mim enquanto estou pedalando com a Sulamita Rodriguez eu respiro fundo e me preparo para ações evasivas. Tenho mais receio de motoqueiros do que de carros, devido à mobilidade imprevisível dos primeiros.

***
Neste momento meu fortuito leitor pode me perguntar sobre o destino profissional do entregador de CPPT, o que este pobre coitado vai fazer já que empinar sua possante criatura na minha servidão é uma atividade bastante improvável de ser monetizada no curto prazo? É uma tragédia o tal do desemprego e encontro mais de um almeidinha que se propõe a aliviar o fardo dos despossuídos deixando de levar a sua bandeja vazia e seu lixo ao fim de mais uma tediosa refeição na praça de alimentação. Hipocrisia vem em muitos sabores, eu lhes digo, e não acho que meus esforços sociais devam ser investidos na manutenção ou mesmo criação de subemprego. As pessoas merecem mais do que isso. Toda vez que seu camarada almeidinha enunciar este tipo de ajuda aos seus concidadãos menos favorecidos, sugiro que ele, de repente, contrate a faxineira com carteira assinada ou que deixa de trazer muamba de Miami. O Brasil agradece.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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