John Updike: Cidadezinhas

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Um dos clichês da idade avançada é a repetição. Minha querida avó paterna repetia as histórias logo após terminar de contá-las, talvez porque achasse que não tínhamos entendido ou simplesmente porque lhe apetecia contar aquela história, que ficava melhor a cada vez que era contada. Minha avó paterna não repetia histórias; Dona Frida tinha uma percepção diferente do tempo e neste ponto se diferenciava dos outros idosos que conheço.

Updike inicialmente se repete no tema. A infidelidade suburbana sempre foi um tema querido do escritor, embora, que eu saiba, tenha tomado o primeiro plano apenas em Casais Trocados. Nos outros livros que li Updike sempre usa o tema como fundo, como parte inevitável e natural do cenário.

A repetição ocorre também durante a narrativa. Certas características de personagens e certos eventos reaparecem em alguns trechos de forma muito similar em estrutura, de um modo que me parece mais cacoete ou problema de revisão do que uma escolha estilística. Algo assim se percebe em um Naipaul maduro e auto-biográfico.

A repetição não chega a ser um problema. Updike escreve muito bem e isto é o suficiente para justificar um livro como Cidadezinhas, um extrato de livros anteriores, uma revisitação saudável de priscas eras. Existe algo novo nesta abordagem de Updike, uma mistura de romance de formação com a saga intensa do americano maior do que sua própria era e que se acomoda. O escritor flerta com ambos formatos, como se brincasse, mas não se compromete com nenhum deles. Num primeiro momento achei desonesto, mas em seguida entendi que escritores maduros já não estão nem aí para o que vão pensar, eles podem brincar com os formatos buscando a invenção que já não vem naturalmente e isso tem seu valor.

Cidadezinhas termina como um caso secreto, com pontas soltas e muitas coisas que não foram. Pode ser que aí resida o maior valor deste livro tardio de Updike, que não faz feio diante de seus antecessores.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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