Assassinos do Bem

PIB

Sou uma pessoa de hábitos simples. Um deles é ler enquanto almoço. Preciso apenas de um pedaço de mesa e não me importo com os ruídos ao redor. Exceto quando estou cercado de idiotas, como foi o caso hoje. Sentaram ao meu lado, depois de eu já haver iniciado minha refeição, cinco exemplares do lamentável Perfeito Idiota Brasileiro (PIB). Camisas polo de marca daquelas que liquidam constantemente em Miami ou em qualquer outlet de subúrbio, semblante bem barbeado nos idiotas do sexo masculino, cabelos cortados ao estilo Almeidinha.

Num primeiro momento, uma narrativa máscula (sic) de um dos idiotas falando sobre a glória de, numa fazenda no interior, matar diversos animais de pequeno porte com armas desproporcionais. O PIB alfa explicava, com ar de grande connoiseur, aos babaquinhas do grupo as restrições impostas pelo dono da fazenda (“pode matar uns dois quatis, mas não atira em rolinha ou em jacu) e outros detalhes que pretensamente qualificam o mauricinho como um grande caçador.

Num segundo momento consegui me desenvencilhar da conversa e focar no meu livro, mas logo a única mulher no grupo começou a falar, muito rápido, sobre como odiava o Lula, que a Dilma era igual ao Temer por tê-lo escolhido como candidato na chapa. O ritmo era similar ao da musa tucana que vociferou na votação do impeachment da Dilma como uma vestal figurante de filme do Conan. Difícil ignorar.

Como se não pudesse ficar pior, o almeidinha alfa tomou as dores e o discurso da menina, passando a descrever como seria fácil “um franco-atirador atingir Lula e resolver os problemas do Brasil”. Falou ainda de “um amigo das forças armadas” que havia descrito em detalhes como o plano poderia ser levado a cabo.

Nessa hora eu já havia rapidamente terminado meu prato e saí antes de vê-los saudarem-se mutuamente ao modo fascista, então nem sei se isso aconteceu. Poderia ter acontecido, havia todos os elementos que potencialmente levariam a isso. A “Gente de Bem” se expressa pelo assassinato, seja de pequenos e indefesos animais, ou mesmo de grandes e indefesos animais, e de toda e qualquer pessoa de quem eles não gostam ou a quem o mestre de marionetes mandou eles odiarem. Assassinos, no discurso e na prática.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Assassinos do Bem

  1. Mario Tessari disse:

    Lamentável! Porém, corriqueiro. Muitas pessoas preferem matar a conviver com diferenças. Intolerância e covardia. E usam armas mortais. Principalmente, a língua. Para respeitar, aprender e amar, é preciso ter coragem.

    • gilvas disse:

      matar tudo o que não entendem ou não aprovam. matar, tirar da vista, eliminar, trucidar. violenta intolerância.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s