Graham Greene: O Poder e A Glória

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O Poder e a Gloria se passa na época em que a revolução dos Camisas Vermelhas agitava o país. O mote principal é a perseguição que o governo empreendeu aos religiosos então. Como de praxe em Greene, a questão é analisada do ponto de vista mais humano e pessoal possível; as personagens são mostradas de rosto colado ao do leitor, é difícil escapar do confronto.

Embora os dilemas espirituais e religiosos tenham sido colocados na medida correta em outros romances de Greene, neste penso que ele errou um pouco a mão. Talvez eu pense assim porque não me apetecem os homens religiosos de qualquer matiz, talvez porque a cena da cela coletiva na prisão tenha sido realmente demais para a minha paciência. A trama discorre no tradicional modelo policial, com crescentes de tensão e clímax desolados onde a natureza humana revela seus absurdos quase comoventes.

Outro ponto que me incomodou foi a ambientação um tanto preguiçosa. É difícil para o leitor se localizar em cena, parece-me que quase o tempo eu estava em um palco de teatro, tamanha a artificialidade das descrições. Me ocorreu que talvez Greene não tenha tido tempo, em sua temporada no México, para se familiarizar o suficiente com os ambientes que retratou no livro, mas pode ter sido uma escolha estética duvidosa mesmo.

O que vale, enfim, são as personagens poderosas. O mau padre se balança constantemente em busca de uma redenção que é no mínimo duvidosa. O tenente, nêmesis do padre, em busca de sucesso e aprovação de si mesmo. O dentista, alterego do escritor, encalhado em uma cidadezinha minguante. A filha bastarda que nunca dará em nada. A menina empoderada que cuida da mãe doente e do pai sem noção. O mestiço que exala traição e inevitabilidade da tragédia. O casal de irmãos luteranos que segue tenazmente à margem. E, por fim, o assassino, o gringo, que surge como um cometa fugaz para finalizar uma trajetória em que nem mesmo o padre acredita. Um livro irregular, mas ainda uma diversão válida e honesta.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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