Chuck Palahniuk: Condenada & Maldita

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Fui matar meu jejum de Chuck Palahniuk anos após ter lido o obrigatório Clube da Luta e encontrei mais do mesmo. Isto é bom? Ainda não tenho certeza.

A protagonista dos livros Condenada e Maldita é Madison, uma menina gordinha de onze anos, filha de pais obscenamente ricos e mundialmente famosos. Os títulos, desconfio, ironizam títulos similares de literatura barata recente para adolescentes. Ou não. Nunca dá para saber se Palahniuk está falando sério, o que pode ser o que de melhor se extrai de seus livros. Bom, o ponto é que Madison morre de uma forma estúpida, como Camus diria que todos morreríamos. A menina vai para o inferno, que é bem literal, cheio de danação, mares de esperma, demônios arbitrariamente cruéis, em suma, toda uma atualização da cantilena com que Dante nos empapuçou séculos atrás.

Foi bom falar do chato do Dante, pois Condenada é o Inferno segundo Palahniuk. Nosso autor é uma espécie de romancista DJ, ele pega pedaços de diversas obras, literatura, música, filosofia, história, tudo, e joga em pedaços grandes dentro de um Mister Blender preguiçoso. Partes inteiras do original boiam no caldo resultante, que é cozido apenas o suficiente para não dar processo. Jane Eyre é uma constante nesta primeira fase, assim como O Clube dos Cinco. Há de se perguntar por que uma menina de onze anos gosta de um filme velho de sessão da tarde, mas perdi o costume de questionar as plausibilidades de Palahniuk.

O texto é rápido e ansioso, carregado de escatologia. Eu digeri de boas, mas pode ser que fira estômagos mais frágeis. Adolescentes talvez. Eu não sei dizer exatamente quem Palahniuk mira e talvez nem se possa dizer que ele mire algum público. A trama do primeiro volume tem pelo menos uma descontinuidade gritante, e o autor não parece se preocupar com isso, talvez eu devesse considerar como um viés do estilo dele. Que seja.

Incomoda, todavia, que os elementos de Clube de Luta possam vir tão fácil à tona, apesar do modelo de narração ser diferenciado. Uma alma saturada da vida urbana, recheada da hipocrisia democrata e de consumismo de produtos verdes e nova era sofre algumas epifanias e se torna uma liderança de pessoas ainda mais desoladas do que ela mesma. Exércitos são formados de forma abrupta, o romance se entremeia sem efetivamente decolar. Afinal, ela tem apenas onze anos. As reviravoltas são constantes, ressignificando mais de um personagem no caminho, deixando, porém, sempre uma ponta de dúvida sobre o real caráter de um ou outro. Em suma, reafirma o que eu digo sobre a ambiguidade e a dúvida serem os melhores momentos de Palahniuk.

Neste caminho de cinismo e sarcasmo, o autor quase pesa a mão no sentido de traçar uma comparação estrutural das palavras “democrata” e “hipócrita”, que são, percebi dias atrás, muito parecidas. Os pais de Madison são pintados com essa tinta até o nível da sobrecarga sensorial e apenas no segundo livro, depois da metade dele na verdade, que Palahniuk se redime ao sentar o relho sobre os lombos republicanos também. Achei justo.

Enfim, o segundo volume tem a mesma levada do primeiro. Muda o modelo de narrativa, entra uma espécie de blog, formato que Palahniuk parece não ter digerido direito, onde Madison revela eventos de sua vida pré-morta em contraponto com as falas, menos frequentes, de Leonard, o nerd dos Cinco. As guinadas mirabolantes parecem saídas dos quadrinhos, o mundo vai acabar, drogas a rodo, religiões recém criadas, mortes burlescas e o cramulhão escarlate até que tudo converge para uma calmaria aparentemente infértil da qual não imagino como Palahniuk sairá. Sim, termina assim, provavelmente aguardando o terceiro volume. Por sinal, eu não consegui ler o terceiro volume da Divina Comédia. O inferno é interessante até, o purgatório é chato e o céu é inacreditavelmente tedioso, não passei da terceira página. Vai que é um sinal…

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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