Luís Fernando Veríssimo: Borges e os Orangotangos Eternos

verissimoborges

A coleção Literatura ou Morte, até onde me lembro, propunha-se a criar obras onde um escritor brasileiro escreveria homenageando outro escritor, brasileiro ou não. Na época do lançamento eu não me comovi muito pela proposta, embora tivesse ficado de olho neste Borges e os Orangotangos Eternos, onde Luís Fernando Veríssimo se propõe a emular o estilo e os cacoetes encontrados nos pontos de intersecção entre Poe e Borges.

Veríssimo é um cara cujos textos eu encaro sem medo. Ele pode ser quase bobo às vezes, e quem não seria bobo de vez em quando ao escrever crônicas diárias? Em suma, ele pode soar bobo, mas, mesmo nos piores momentos, é um cara que entende do ofício de escrever. Sua prosa é redonda, as frases saem felizes de suas mãos. Veríssimo, no mínimo e no seu pior, ainda é didático.

Em Borges ele vai mais longe, mostra que prestou atenção aos mestres e nos presenteia com um pastiche muito convincente. Ou seria uma paródia respeitosa ainda que divertida? Oh dilemas! Escrito em primeira pessoa por um escritor fã de Borges, as primeiras páginas se referem ao respeito que o narrador tem pelo escritor argentino. Fala também sobre sua pessoa reclusa e de hábitos peculiares. Como em um bom policial, entrega peças não essenciais das vizinhanças do desfecho, garantindo maior impacto para o que revelará mais para a frente.

A Veríssimo não basta emular os mestres, ele utiliza seu marionete narrador para destrinchar os estilos existentes da história policial, com especial atenção aos diversos tipos de narradores conforme a literatura do gênero evolui. A própria narrativa apresenta exemplos para o leitor, que se embevece com a forma como Veríssimo brinca com uma história de mistério. Há claro as impossibilidades mirabolantes de uma história de Poe e as elucubrações alucinadas de Borges, incluindo sua tendência criar ficções tão plausíveis que nos fazem duvidar de que sejam ficções.

Borges e os Orangotangos Eternos é Veríssimo em seu melhor, entregando um romance de paladar leve e gostoso, que flui rápido e deixa saudade quando termina.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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