Xico Sá: A Divina Comédia da Fama

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Os anúncios são acompanhantes de praticamente todo texto que leio em sites de internet. Ultimamente são dietas milagrosas ou notícias bizarras sobre ufologia, mas já houve tempos em que as celebridades eram presença garantida nos rodapés de quase tudo o que eu lia online. O que terá mudado em meu perfil? E por que eu acredito que havia um perfil a ser seguido ou mesmo algum robô disposto a segui-lo? Longe desses dramas existenciais, entretanto, jaz a certeza de que as celebridades continuam sendo o prato predileto dos leitores de notícias, embora os anúncios não saibam exatamente como transformar essa mórbida atratividade em dinheiro.

Sim, a fama continua sendo um valor em si mesma. Não importa que o populacho desconheça por completo a obra literária ou o triunfo musical de um dado indivíduo, o que interessa é que esta pessoa seja famosa. Basta isso e aparecem cadernos e canetas sôfregos por autógrafos, gente doida o suficiente para criar fã-clube ou mesmo para se mutilar para ficar semelhante à celebridade. Nem vou falar das tatuagens de famosos para não ficar melancólico demais.

Xico Sá circulou pelo meio, entrevistou pessoas e chegou a uma paródia divertida da Divina (e chatíssima) Comédia de Dante Alighieri. Sá apresenta a trajetória de uma celebridade através de seu purgatório, passando pelo efêmero céu e enfim desabando num longo e triste inferno. A sequência não é mesma do poema de Alighieri, o que se justifica pelo processo bem conhecido de produção de celebridades, que chegou ao extremo de produzir gente que é famosa apenas por, caspita, ser famosa.

Sá aparentemente se baseia no modelo de humor de P.J. O’Rourke, celebrizado por seu excelente Guia de Etiqueta, onde descreve Finas Maneiras para Gente Grossa. O’Rourke inclusive é citado por Sá em algum momento, mas falta algum gume ao brasileiro. Sá deixa o texto afrouxar em alguns momentos anedóticos, quando se propõe a exemplificar algum ponto da trajetória da celebridade modelo por algum fato histórico ou por algum depoimento. Muitas vezes o texto se perde de sua intenção inicial, como se fizesse um muxoxo vago. Falta a Sá o dom do epigrama constante, essa ferramenta que notabilizou tanto Wilde quanto o citado O’Rourke; certas piadas funcionariam bem melhor com um tiquinho de absurdo sociológico.

Ainda assim recomendo a leitura se você é o tipo de pessoa que ainda se deixa levar por notícias sobre celebridades. Este ramo infeliz do pseudojornalismo por algum tempo até me divertiu e eu nutria alguma simpatia pelas revistas Quem Acontece e Caras que eu via pelos consultórios da vida. Agora a coisa só me dá uma sensação mista de asco e vergonha, me pego arrependido quando perco alguns minutos lendo alguma chamada apelativa para alguma celebridade. Se você tiver essa vontade de escarafunchar, pega então esse livro e se divirta com alguma profundidade, com alguma substância.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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