Bong Joon-Ho: Okja

okja

Okja se equilibra como entretenimento eficiente enquanto busca injetar consciência e reflexões profundas em espectadores potencialmente catatônicos. Até que ponto Bong Joon-Ho conseguiu alcançar seu aparente intento?

Conheço o diretor coreano de seu Hospedeiro, um filme que poderia ser classificado como terror, mas que mira em algum outro alvo que eu, infelizmente, não consegui entender. Snowpiercer eu soube aproveitar melhor, talvez por minha experiência prévia com quadrinhos, mas ainda assim sua proposta estética me causou algum desconforto, o que, enfim, tenha sido sua intenção. Mother é uma falta em minha filmografia que pretendo corrigir em breve. Agora, Okja, como não ser simpático a um filme de tanta exposição que se propõe a tratar dos males do capitalismo industrial?

Gosto da forma como Joon-Ho apresenta seu caso. Alta velocidade, a ansiedade da publicidade, as ideias nebulosas e vazias do marketing contemporâneo, Tilda Swinton mostrando o lado A de sua gêmea Mirando enquanto dá pistas de uma segunda irmã que, nos moldes de um Tyler Durden corporativo. Dá para perceber a máquina por baixo das descrições, tanto na corporação como na bucólica Coreia onde se dá a apresentação, algo esquemática, da relação entre Mija, Okja e o pragmático avô. Há alguma pressa nessa fase do filme, como se fosse um prólogo obrigatório (e é) antes da ação começar.

A ação começa. Muita ação, é um filme mais agitado que eu imaginava. A inserção do grupo de protetores animais problematiza o roteiro em vez de facilitar: cada membro do grupo tem suas motivações e é muito importante a forma como elas ficam claras mesmo quando o conjunto opera numa mesma direção que, claro, não é exatamente aquela que Mija desejaria. E há mentira maculando a pureza de intenções dos ativistas, eles são humanos operando em um jogo que só podem atrapalhar, nunca ganhar.

A fragilidade de todos os personagens, mesmo a Rutinha Mirando, é evidente. Quando surge a Raquel Mirando é perceptível que ali não existe nada de humano; Tilda Swinton passa a ser o veículo de uma entidade abstrata, o Capitalismo Malvadão e Insensível. O que, convenhamos, é genial. Amo a cena em que as irmãs se encontram, um único momento em todo o filme, em que a Raquel traz seu cigarro aceso para ceder uma brasa ao cigarro da Rutinha, que então parte para os bastidores. Quem é real, quem é a ficção? Existem duas pessoas ali ou apenas uma ou apenas projeções de Frank Dawson?

O veterinário fracassado de Jake Gyllenhaal mostra que o ator não está poupando riscos. Sua caracterização exagerada cabe no personagem, até diria que é exigida. Sua degradação mostra o que acontece com os incautos que se enfiam entre as engrenagens da indústria, os perdedores que não conseguem deixar a fama ir. Nada do que ele faça pode salvar sua carreira, e uma humilhação é apenas a antessala de mais humilhações. Mesmo quando ele é cruelmente monstruoso ou monstruosamente cruel a humilhação é inevitável, nenhum sofrimento que ele possa infringir a alguém vai livrá-lo de sua queda.

Talvez o filme tenha sido algo desonesto em suas amostras no trailer. Duvido que a maior parte dos espectadores estive pronta para assistir a um estupro. Eu acredito inclusive que haja quem não tenha sequer percebido que era um estupro, assim como se desculpam estupros televisionados em reality shows de horário nobre. A anestesia do espectador pode ser vencida com este truque?

O final é uma jogada excelente. Todos fracassam. O final feliz é garantido por uma manobra baixa, fiduciária, não existe nem sombra de redenção. O pequeno bônus adquirido na reta de saída da fazenda monstruosa serve mais para lembrar que se pode salvar muito pouco da indústria, que estamos condenados e que não há nada que se possa fazer. Pequenos alívios são possíveis, mas a monstruosidade vai prosseguir em cercados distantes de nossos olhos.

Li muitos comentários sobre como o matadouro se parecia com um campo de concentração. Gente, não parece tanto com um campo de concentração, na verdade é simplesmente um matadouro de porcos ou bois na atualidade, um matadouro de onde saem os bifinhos aparentemente anódinos e inócuos que são colocados no seu prato todo dia. A falta de empatia com os animais é tamanha que as pessoas insistem em fazer comparações bem menos óbvias do que uma realidade gritante, simplesmente porque, enfim, “eu vi o filme, me comovi, mas não consigo parar de comer carne”. Houve quem dissesse besteiras do tipo “é uma pena, mas não se pode viver sem carne”. Como assim? Ainda que o objetivo de Okja, a meu ver, não seja o de alimentar militantismo vegetariano, é curioso que muitas pessoas o enxerguem equivocadamente por este viés e, apesar disso, não consigam se deixar tocar por esta mensagem secundária.

Okja é um filme de muitas camadas, que entrega uma crítica contundente ao modo como deixamos a indústria dominar nossa vida. Como representante do cidadão comum, Mija está interessada, como qualquer herói jovem da Disney, em salvar sua mascote, e não se percebe que ela possa estender sua preocupação aos outros milhões de porcos mutantes que levarão uma vida horrível e uma morte identicamente horrível apenas para garantir que glutões humanos tenham acesso a carne. Mija se encontra no centro de um embate entre forças que ela não entende profundamente e que, a despeito de algumas boas intenções, não se importam com ela. Particularmente, pode ser percebido que ninguém realmente se importa com as outras pessoas. Okja, neste caso, é uma crítica a um individualismo crescente que nos torna presas ainda mais fáceis para a máquina capitalista. A coisa só fica ainda mais interessante se considerarmos que Okja, o filme, é um produto de uma corporação, Netflix, que não dá ponto sem nó; tudo ali é pensado para dar lucro. Será que chegamos ao ponto em que mesmo a indignação pode ser embalada e vendida?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Bong Joon-Ho: Okja

  1. Mario Tessari disse:

    Pra mim, a própria imagem da apresentação já traduz a tragédia do Sapiens atual: um troglodita carregando fábricas de dinheiro e de poluição.

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