Victor Hugo: Os Trabalhadores do Mar

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Victor Hugo deveria dispensar apresentações, eu pensava. Eu estava errado. O escritor francês tinha uma cadeira de representação política no poder legislativo quando da ascensão de Napoleão III e teve de se refugiar em uma das ilhas do Canal da Mancha, a exemplo de vários outros oponentes do novo governante francês. Eu sempre havia enxergado Hugo como uma rara ocorrência de artista amplamente admirado em vida, não imaginava que ele houvesse passado por esta humilhante situação. Perceber isso deveria ser óbvia, dada a temática deste Trabalhadores do Mar, a qual foge totalmente ao universo urbano de seus outros dois grandes romances, Notre Dame de Paris e Os Miseráveis.

Os Trabalhadores do Mar também não foi o que eu esperava. Minha expectativa era a de um realismo similar ao trabalhado por Dickens, recheado de coincidências, soluções narrativas fáceis e muitas lágrimas simplistas. Sim, eu gosto de Dickens, o que não me impede de enxergar seus muitos defeitos. Hugo é um escritor de recursos mais amplos. Suas descrições são épicas, seja dos espaços, seja das abstrações. A contextualização das ações de seus personagens são longa e detalhadamente desenvolvidas. A imensidão solitária dos rochedos em que Gilliat fica durante quase um terço do livro é reiterada ao ponto de aderir ao coração. Hugo convoca poesia, prosa, sem esquecer da ciência empírica que dominava o século XIX, tornando-se material riquíssimo para esses romances que tanto nos encantam ainda hoje. Os fenômenos meteorológicos são espantos magníficos, provocam e devoram a capacidade de abstração do homem genial que foi Hugo. Como não se deixar levar pelo terror inspirado pelo polvo que ataca Gilliat, espanto que deu vida a tantos horrores do mar em filmes de piratas que eu devorei nas sessões da tarde em Canoinhas?

Dentro de uma galeria de personagens muito bem desenvolvidos, é impossível não perceber o amor que Hugo desenvolve por seu protagonista. Gilliat é um herói romântico com pés firmes no chão, uma invenção verossímil ainda que poderosa e inspiradora. Eu sonho em ser como Gilliat, este ser que doma a natureza sem magoá-la, que sabe o que fazer a cada momento, que inspira forte e segue enfrentando de peito aberto tudo que se lhe sucede. Tal homem magnífico, modelo de presteza e capacidade, é hostilizado como “o filho do diabo”, não há quem possa compreender alguém como Gilliat. O bem que ele entrega a todos que o cercam é mal compreendido, é um processo doloroso que conhecemos no cotidiano, mas que o gênio de Hugo conseguiu concentrar e imortalizar nesta obra obrigatória.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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