Neil Gaiman: O Livro do Cemitério

A maior parte das pessoas não sabe o que está fazendo. Não especificamente com sua vida sentimental ou suas coisas; as pessoas não sabem o que fazem no sentido amplo de sua existência. Elas normalmente nem conseguem entender o que está acontecendo. Existem graus para essa ignorância e graus para o quanto se percebe dessa ignorância. Entre os espaços escusos entre essas duas fronteiras difusas há uma gama gigante de cinzas mais ou menos encantadores, uns tantos lamentáveis, outros tantos potencialmente encantadores.

Neil Gaiman está ali no meio junto com quase todo mundo, mas desconfio que ele sabe, mais do que a média, o que está fazendo. Ou pelo aparenta quando no entrega uma obra singela como O Livro do Cemitério. A produção de Gaiman sempre primou por uma mistura de seres tenebrosos que são fofos ou seres fofos que são tenebrosos ou ainda fofos tenebrosos que são seres. Suas personagens podem ser leves ou pesadas mas nunca falta empatia de seu criador, que sempre reserva alma quando as descreve.

Gaiman não escreve para errar. Claro, um ou outro conto em que ele brinca com as palavras, em que ele não leva a sério as convenções narrativas, ele experimenta rapidamente, sempre que pode, mas é raro que o faça em narrativas longas. Quando se pressiona a carne de uma criação de Gaiman, os ossos estão ali por baixo, sente-se, há cartilagens, há uma estrutura de várias resistências que servem a suas intenções. Gaiman é de uma geração fronteiriça entre o já ter acontecido tudo e o não haver mais restrição ao que pudesse acontecer.

Há reciclagem aqui, eu não esperaria algo diferente de quem sabe o que está fazendo. A linha dorsal deste livro remonta a seu Livros da Magia, um dos seus primeiros trabalhos na DC. Lá um garoto é acompanhado por seu guardião em uma viagem pelo mundo oculto ao materialistas dialéticos. O guardião some e uma guardiã hesitante assume, há uma batalha num país antigo onde os anti-heróis que acompanham o guardião enfrentam uma batalha sórdida contra forças misteriosas que ameaçam o garoto. Que é especial. Assim como em Livros da Magia aqui há intensa pesquisa e aparições inspiradas de monstros que quase todo mundo tinha esquecido e pensa “que bom que o Neil o trouxe de volta”. Bom, este lado historiador erudito das ficções e das religiões é uma marca de Gaiman em quase todos os seus livros.

Deixemos de lado as fabulações e as elucubrações. Trata-se de um bom livro, encantador quando deve ser. Espero que mais jovens o descubram. Eu gostei de ter lido este livro agora, mas penso em como ele explodiria minha cabeça se lido na minha adolescência. Ou talvez não. Muito do gosto de ler essas páginas se deve às conexões prévias que Gaiman reativa, não faço ideia de como um cabação de dezesseis anos, aquele eu mais jovem, receberia este texto. Paciência, gosto mais de mim agora e um pouco mais ainda depois de ler O Livro do Cemitério.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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