Sobre fazer voltarem os livros

Tenho fetiche por livros em formato físico. Gosto de vê-los enfileirados em minhas prateleiras. Em algumas culturas, ou falta de, eu seria considerado um acumulador, digno de ter um episódio de um programa de televisão só para mostrar as bizarrices do meu estilo de vida. Perco-me em devaneios olhando para as lombadas colocadas lado a lado, lembro de trechos, lembro de onde comprei determinado livro, avalio como uma lombada combina com a sua vizinha, teço análises estatísticas sem embasamento, comparo as quantias presentes de um dado autor em comparação a de outro e por aí vai. Quase tudo é diversão quando se trata de meus livros, exceto a aterradora lembrança que me causa uma ausência.

Dor. Negação. Raiva. Resignação. Ameaças. Ansiedade transformada em consumo de alimentos pouco saudáveis.

Para evitar esses eventos patéticos, utilizo algumas estratégias, algumas paliativas, outras preventivas. Nada que realmente afaste o fantasma do desaparecimento de um ente tão querido, mas que amenize os sentimentos de impotência que ele causa.

a. Substituo o livro desaparecido por outro exemplar, mesmo que não seja da mesma edição que desapareceu. Funciona também para livros que peguei emprestado. Nota: odeio ler livro emprestado pois, se eu apreciar, vou querer ter uma cópia para mim. Essa relação possessiva é doentia, eu sei, mas setorizada, então não me importo. De verdade.

b. Controlo os empréstimos usando uma planilha. Exige disciplina, claro, e não evita que livros sumam, mas garante que eu saiba quem sumiu com ele. Guardo o nome para o acaso de um dia encontrar a pessoa em questão se debruçando sobre um lago de jacarés ou algum precipício medonho. Estação de metrô também serve, mas prefiro a natureza.

c. Quando um livro é devolvido, evito emprestá-lo imediatamente a outra pessoa, a menos que eu possa rapidamente atualizar a planilha de controle. Já me ocorreu mais de uma vez de emprestar para fulano, fulano é gente boa e devolve o livro num prazo hábil e civilizado, mas daí eu encontro sicrano no corredor com o livro na minha mão e ele pede emprestado, vou para uma reunião e esqueço totalmente de que o livro está com sicrano e não com fulano. Ocorre que passo a odiar fulano e me dá um nervoso encontrar fulano em algumas das situações descritas no item (b).

d. De vez em quando me disponho a emprestar um livro, mas aguardo a pessoa perguntar por ele. Há muitas pessoas que querem ser simpáticas, elas respondem que querem o livro, mas talvez não queiram tanto assim ou seus hábitos de leitura inexistem, o que implica em um livro meu ficar solitário sobre uma escrivaninha ou jogado num canto até que desapareça em alguma mudança. Livros desaparecem em mudanças, já notou? Antes de pensar em algo sobrenatural, prefiro pensar que as pessoas não gostam de carregar caixas impessoais de livros, elas são pesadas. Lavadoras de roupa também são pesadas, mas são incômodas o suficiente para que ninguém as esqueça dentro de um caminhão cheio de cobertores ou em frente à porta de um bloco triste de apartamentos num subúrbio cinzento.

Espero que minhas dicas tenham servido para alguma coisa e também que outras ideias surjam. Caso ocorram, solicito que as registrem nos comentários para uso futuro. Juro que não vou copiá-las para um post-scriptum como se fossem minhas. Sério.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Sobre fazer voltarem os livros

  1. Julio disse:

    Eu tiro fotos das coisas que empresto para as pessoas empresto….

  2. Mario Tessari disse:

    Li o texto como se eu mesmo estivesse registrando meus sentimentos pela nossa pequena coleção de livros, que já foi maior e diferente. Mas, como você escreve, diminuiu por empréstimos esquecidos (ou não controlado em planilha), extravios em mudanças e doações.

    Que coincidência! Justo agora que iniciamos mais uma redução de livros nas prateleiras.

    Estamos passando adiante os livros que não cabem mais no tempo que nos resta para ler. Para a última etapa de vida, reservamos os livros mais queridos, aqueles que almejamos reler. Quem sabe consigamos? E outros que já aguardam há tempo, porque andamos muito ocupados com outras coisas que queremos fazer nessa última idade. Discos de músicas que adoramos, sementes aguardando a plantação e palavras ansiosas por formar frases, parágrafos, poemas, contos, cartas, romances, … Menos autobiografia. Carecemos de vaidades para registrar glórias efêmeras. Se houver algo que mereça eternidade, outros reconhecerão por si mesmos.

    Parabéns pelo texto! E muito mais pelo carinho para com esses amigos silenciosos que nos falam ecos de nós mesmos!

    • gilvas disse:

      Meu pai, quem diria, exala romantismo. Muito bom compartilhar do amor pelos amigos livros tanto aqui quanto nas prateleiras. Quero chegar de novo na parte de reler. Eu relia muito quando tinha mais tempo e menos livros.

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