O Imperfeito

Hoje eu participei de uma palestra bem legal com um facilitador de Pathwork. Ao pedalar de volta para casa, relembrei alguns pontos e relembrei também que ele, o facilitador, era imperfeito. Sorri.

Em meu primeiro contato com a terapia eu não estava lá. Eu esperava ser guiado, talvez pastoreado, eu, pensando bem, nem sei o que eu estava fazendo lá. Eu não fui lá por mim, eu desconfio. Pensemos então nesta primeira abordagem como uma ausência minha.

Em meu segundo contato eu também não lembro do que eu queria. Talvez conhecer a mim mesmo ou desatar alguns nós. Lá estava a terapeuta e eu também. Eu estava lá. Neste sentido. Durou duas sessões. Ou terá sido uma? Acabou porque ela falou de física quântica. Joguei tudo no chão, nunca mais voltei. Por que ela tinha de estragar a imagem dela assim tão cedo? Me deixa tentar criar uma imagem para admirar e me dar um norte, eu pensei.

Sim, houve uma terceira tentativa como há um quarto parágrafo neste texto. Durou mais de um ano de sessões. Ou ao menos parece que foi isso. Não vem ao caso o tempo. Difícil para mim lembrar quando percebi que a terapeuta era imperfeita. Deve ter sido muito rápido. Quem sabe eu já soubesse de antemão, ela havia sido indicada. Ou simplesmente pelo fato de que ela era humana. As conclusões são óbvias.

Imperfeição e a percepção dela compõem um belo ponto de partida, uma parada de um ônibus que pode me levar a algum lugar onde eu deseje chegar. Como alguém perfeito pode entender alguém que é imperfeito? Como alguém que se coloca num degrau de cima poderia entender alguém sentado num patamar abaixo sem descer a escada?

O caminho é longo. O prédio é enorme. Muitos quartos. Saudável parar para olhar por uma janela entreaberta. Para dentro ou para fora. Tanto faz. Basta se permitir olhar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para O Imperfeito

  1. Mario Tessari disse:

    “Ao pedalar os fragmentos da palestra, a imagem apareceu nítida: palestrante imperfeito. No entanto, os psicólogos também são. Então, passo a ser menos inferior que eles. Que alívio! Estou à altura da concorrência. E o melhor de tudo: posso me aceitar imperfeito. Assim, preciso cuidar só de parte de mim: o que for considerado normal. Tudo o resto são ‘pontos fora da curva’. Estou livre! Dispensado de lutar por um ideal utópico.”

    A descrição das terapias faria inveja a Franz Kafka. Talvez possa ser confundida com algum relato de Friedrich Nietzsche. Você conseguiu se ausentar da primeira terapia; eu sonho poder estar ausente do meu velório. Ou seja, os dois, só de corpo-presente.

    A esperança de ‘ser guiado’ e as possíveis pílulas de harmonia interior podem compensar as dores do desnudamento. Se o psicólogo for um bom espelho, talvez possamos contemplar um pouco de nós mesmos, de relance. Ou visualizar as tramas dos nossos nós, o que facilitaria desatar as amarras.

    Depois. Porque, as aprendizagens consomem tempo para se revelarem. Aprendemos algum tempo depois de termos sido ensinados. Raramente, a aprendizagem é instantânea. Uma das condições para que as ensinagens se concretizem em saberes aprendidos é a sintonia entre os dois atores; é preciso que os dois dialoguem no mesmo canal. Dificilmente, o ensinador possui segurança suficiente para abrir mão da sua superioridade e descer até o aprendiz. Resta ao aluno se esforçar para alcançar o ‘mundo do mestre’; para entender a linguagem que ele usa e as explicações ‘didáticas’. Temporariamente. Não é permitido permanecer indefinidamente no ‘nível superior’. É por isso que as reprovações escolares decrescem com a progressão acadêmica: muitas no primeiro ano escolar, que vão sendo reduzidas ano a ano, chegando à inexistência, praticamente, nos pós-doutorados. Tomando como exemplo o Ensino Médio, na primeira série, apenas um terço dos alunos consegue aval para cursar a segunda série; poucas reprovações dos alunos da terceira série. Quanto mais igual o aluno se tornar ao professor, maior poder terá, será melhor entendido e considerado um ‘dos nossos’. (O aluno precisa se esforçar para entender o professor e não ao contrário.) Ou seja, à medida que progride academicamente, o indivíduo poderá permanecer mais tempo com seus ‘superiores’. (E os professores podem entender melhor o aluno adulto, que está quase com a idade dele…) Nas famílias tradicionais, as crianças eram retiradas da sala … quando chegavam visitas adultas. Ou eram mandadas brincas com as visitas-adultas.

    Enfim, no fim, todos saem ganhando. Palestrantes, palestrados, analisados e terapeutas.

    A partir dessas elucubrações, publiquei https://livrosdomariotessari.wordpress.com/2017/09/23/autoanalise-autocura/

  2. Mario Tessari disse:

    Mesmo imperfeita, a imagem ilustra bem o ótimo texto… que, depois, comentarei.

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