Clive Barker: Galilee

Como não amar novela? Eu adoro. Se eu me permitir, posso perder horas assistindo alguma novela tosca. Caio em todas as armadilhas e apenas finjo que me irrito com as apelações. Gosto de novela como gosto de jogos de computador e de casadinhos de uma forma lamentável e culposa. Assim, não assisto novelas, não jogo no computador (os inimigos podem alegar que Yousician é um jogo, mas eu me encasulo em minha certeza de que é uma máquina de aprendizado) e procuro evitar a exposição a casadinhos oferecidos.

Sendo esta pessoa volúvel, quando uma novela se oferece em forma de tijolão de setecentas páginas, eu não resisto. Caio matando. A leitura voa e termino o volume tão rápido quanto terminaria com um daqueles volumes da Coleção Vagalume que embalaram os primórdios da minha vida na leitura. Galilee é a novela em questão e eu me diverti horrores.

Clive Barker é um mestre da arte de escrever histórias envolventes. Sua nuvem conceitual fica em algum lugar entre as de Neil Gaiman e de Stephen King. Li este livro pensando nas sábias palavras de King, inclusive, no que tange às qualidades de uma boa trama. Barker escorrega em alguns advérbios que incomodariam muito ao mestre King, mas no mais das vezes acerta.

A trama mistura lendas das margens do Mar Cáspio e divindades taradonas problemáticas ao mundo da riqueza megalomaníaca ianque e suas famílias não tão taradonas mas igualmente problemáticas. Barker fez uma boa compilação do que funcionaria num livro apelativo e aqui estamos falando dele. Algumas gerações se passam no que poderia ser chamado de guerra entre as famílias Barbarossa e Geary, sendo que os primeiros são uma espécie de deuses quase imortais e os Geary são apenas uns gananciosos escrotos. Não que uns valham mais do que os outros, eu apenas tenho conhecimento do que são os Geary, um deles é o presidente dos EUA no momento, e eu não conheço nenhuma divindade semi imortal para ter uma base de comparação, de modo que vou seguir acreditando no Barker mesmo.

As páginas são movidas em seu virar frenético por mistério, sexo, discórdia, conflitos entre irmãos, assassinato, lugares épicos, conspirações, e um pouco mais de sexo para relaxar de toda essa tensão, sexo que resulta em mais encrencas, alimentando uma espiral viciante. Dito desta forma, pode parecer que as personagens e a própria trama de Galilee sejam entretenimento descartável sem consequências, mas olhos atentos podem observar que a história fala de transformação e renovação, e que as personagens, quando ficam vivas, são renovadas em suas intenções, prontas nesse momento para seguirem novos rumos. As personagens que morrem, em alguns casos, recebem uma espécie de redenção qualquer, o que não deixa de ser um recurso interessante.

Galilee é um livro perfeito para uma semana de férias na praia, para aqueles começos de tarde depois do almoço deitado em uma rede preguiçosa.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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