William Faulkner: O Povoado

faulknerpovoadoO Povoado é a primeira parte de uma trilogia criada por William Faulkner, escritor do sul dos Estados Unidos. A trilogia trata da saga da família Snopes e é ambientado em um condado fictício criado a partir das percepções que o escritor tinha da terra em que vivia. Ainda que tenha sido planejada na década de vinte do século vinte, os livros finais só vieram à luz quando Faulkner já havia amadurecido sua produção literária, o que demonstra a importância desta trilogia para ele.

Este primeiro volume demonstra o estilo de Faulkner de forma mais didática do que outros livros do autor. O fluxo do romance tradicional é quebrado pela disposição da narrativa em capítulos quase independentes que poderiam funcionar como contos dentro de uma compilação. A ocorrência desses ditos contos em um universo comum, que partilha das mesmas locações e dos mesmos personagens, é que permite que se perceba algo como uma linha narrativa coerente entre eles. Neste ponto o leitor pode se questionar se Faulkner está nos entregando um texto acabado em que intencionalmente se deixa os tijolos à mostra, ou se estamos todos diante de uma traquinagem, algo preguiçosa, do autor. Essa dúvida surge e não há como dissipá-la, de modo que os recursos à minha mão permitem apenas que eu me decida a apreciar, ou não, o que está impresso.

Considerando minha experiência curta no interior, a vida dos animais no condado descrito por Faulkner é uma aproximação muito precisa do que ocorria há cem anos ou pouco mais no sul dos EUA. Algum inevitável desconforto me assola enquanto leio sobre romantizações de zoofilia, objetificação utilitária de cavalos, entre outras práticas aceitáveis naquelas paragens e naquela época. Numa sociedade de baixa mecanização e poucos recursos, é natural que a relação com os animais se desse desta forma. Em vez de criticar o mensageiro deve-se focar na realidade que ele comunica, lembrar que ela existiu, observar que ainda há fortes resquícios dela e prosseguir na transformação.

Os homens e as mulheres também eram maltratados. Há os poderosos poucos e os oprimidos muitos. A ascenção dos Snopes a partir de uns rebotalhos de criaturas cruentas e chucras se dá pela prática de coerção e golpes. Eles acuam, minam resistências, mentem, prevaricam, tudo no sentido de encontrar para si um lugar na sociedade afluente que está por surgir no horizonte da transformação da realidade que se opera no século passado. Desconheço se esse era o objetivo confesso de Faulkner ao escrever esta trilogia, mas este volume serve como um guia de como operavam os antepassados de algumas pessoas poderosas do EUA de hoje, como, por exemplo, o atual presidente da nação em questão. Gente suja e desonesta que lucrava a partir de sua própria imensa desonestidade alavancada pelos deslizes éticos e morais dos outros cidadãos.

Outra virtude pedagógica deste volume se refere à minha própria leitura da obra de Faulkner. Ainda que possa ser óbvio para muitos leitores dele, para mim foi na leitura de O Povoado que ficou claro que boa parte desta obra são aglutinações de contos ocorridos neste universo comum. A tática é muito esperta, pois apresenta de antemão personagens e localidades que não precisam ser reapresentados em outros livros. Este é um conceito que seria aplicado muitas décadas depois na indústria cinematográfica para impulsionar os filmes do universo compartilhado da Marvel, por exemplo. Faulkner, mais uma vez, se mostra engenhoso e inovador. Seu domínio das ferramentas literárias, tanto as herdadas quanto as que desenvolveu, é soberbo.

O Povoado mostra um Faulkner pleno de energia criativa jovem e pulsante, também recheado das incongruências e incoerências que tamanho ardor juvenil causa ao bom texto. As virtudes superam os defeitos aqui, ou, posto de outra forma, muitos romancistas de diversas eras desejariam muito ter alcançado, em algum momento de suas vidas, este degrau magnífico de imperfeição.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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