Michael Patrick King: Sex and The City

Esta sexta-feira estava com uma cara muito expressiva de sábado, o que, quando se fala de cinema, significa baixa expectativa. Dia perfeito, portanto, para ver Sex and The City, o filme.

O seriado da HBO em questão foi um grande sucesso do seu segmento em meados dos anos noventa, e seu conceito foi levado a pontos não necessariamente aquém do aceitável, recebendo toda sorte de combinações e puxadinhos. Em outras palavras: saturou.

Neste momento, pessoas de bom senso sabem que devem retirar seus cavalinhos da chuva, pendurar suas chuteiras, sair de campo, picar a mula, essas coisas, se é você me entende. Pois então: eles não entenderam.

Sabe como é, o agente de uma delas tem uma idéia totalmente original para sacudir o coreto, e aproveitar o embalo para terminar de pagar sua hipoteca. A idéia, como sói ocorrer na cachola de agentes em Hollywood, é ruim, e, portanto, aceita por todos e, talvez nem tão importante, por todas.

Dias depois, as filmagens. Agora raciocina comigo: cada episódio costuma durar vinte minutos e uns trocados. O cenário é Nova Iorque, uma cidade que respira uma espécie de descompromisso cosmopolita, e, caso tu entendas o significado disso, me informe, e eu acrescento adjetivos como “consumista” e expressões como “hedonismo de isopor”. O fato é que o roteirista sentou diante do computador, e pensou profundamente no significado da vida, e em como os filhos dele acabariam na miséria se ele não executasse a missão impossível que é transformar um snack de festa de criança em uma refeição completa.

Obviamente, não deu. O filme acabou tendo, à guisa de espinha dorsal, um roteiro de episódio esticado ao extremo, e uma série de enxertos que fariam o Doutor Frankenstein parecer uma simples manicure de novela das oito. Alguns exemplos:

1. Os papéis masculinos resumiam-se a samambaias, algumas sorridentes e grudentas, outras hesitantes e altas, e terceiras variadas ao gosto oscilante do freguês. Em vinte minutos, passa batido, mas em duas horas e pouco, você sente falta de densidade;

2. O que diabos é aquela ajudante da protagonista? Porque não chamaram logo a Queen Latifah para aquele papel? Porque cargas d’água os estereótipos precisam ser tão marcados no cinema americano?

3. No verbete “pain in the ass” da Enciclopédia Britânica existe uma foto de Miranda, pode ir lá conferir! Entretanto, usá-la como pivô da confusão sentimental dos protagonistas foi, para manter  a boa educação, preguiçoso. Um roteirista profissional conseguiria ganhar aquela hora e pouco de enrolação de forma mais digna;

4. E pensar que a única piada realmente, e, pensando, talvez não tão boa assim, ficaria melhor em algum filme sobre adolescentes interioranos virgens em filmes de faculdades, com aquele lance de irmandades e tudo mais. Freadas de bicicleta, aplicando um eufemismo, me pareceram algo um tanto impensável para a estética limpinha da HBO;

5. As interpretações do quarteto protagonista são plastificadas, um sintoma claro da saturação do seriado, conforme dito em algum lugar acima neste texto. Para piorar, só fazendo uma versão para telonas de Friends. E que isso não seja entendido como uma sugestão!

6. Esta patuscada não precisava durar duas horas e pouco. Noventa minutos, gente, é uma regra!

Finda a exibição da película, fica uma sensação do tipo “fui enganado, eu quero processar alguém!!!”. E a sensação não passa. Refleti sobre o assunto, e cheguei à conclusão, temporária, de que se trata de um filme com o qual não me identifico. Já assisti a filmes com os quais eu não me identificava, mas aqui o buraco é mais embaixo: trata-se não apenas de uma película filmada em um mundo estranho, mas também de um exercício onde se transforma um mediano programa de televisão em um péssimo filme.

***

Só para constar: eu ri, e bastante, na cena da freada de caminhão. O que, obviamente, não diz absolutamente nada.

***

Aqui tem outra resenha, caso interesse.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Michael Patrick King: Sex and The City

  1. maricota disse:

    é infeliz a sua tentativa de colocar Friends e Sex and the City no mesmo saco, querido.

    Quanto ao filme, vejo “Sex and the City, o filme” como uma mata saudade pra quem era fan da série o que, acredito, não é o seu caso.
    Quem sabe possam filmar “CHiP’s” para que possas ter tal experiência… Sei que és fanzão do Erick Estrada! hahaha

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