Carbon Based Lifeforms: World of Sleepers

Um mundo feito de água. Navega-se sempre, todo traslado é aquático, todo caminho é singrado em embarcações pessoais coladas ao corpo como exoesqueletos responsivos. As texturas eletrônicas se sucedem sedutoras, hipnóticas em meio aos inacreditavelmente diversos tons de azul. Vozes de transmissões como intromissões surgem como ondas em meio ao meio líquido. Os ritmos são consistentes, há um balanço como os corpos das águas vivas e das caravelas pulsassem rebolantes em provocações involuntárias. Continuar lendo

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Ben Myers: Inside The Muscle Museum

O fim do século é um evento que parece não ter efetivamente ocorrido naquele distante 1999. O século novo deve começar no ano zero ou no ano um? Esta dúvida pode ter feito o suspense se manter por mais um ano; afinal, a explosão da internet tinha de nos dar algo novo. O fim do século XIX chegou com a noção de que a ciência natural havia chegado à exaustão dos teoremas e, menino, como eles estavam errados. De forma similar, o século XX jurava que ia acabar junto com outra ciência, a história. Bom, eles haviam prometido o fim da história antes, uma década antes, e, menino, os profetas dessa prometida estabilidade vindoura também estavam dolorosamente errados. O século novo não chegou em primeiro de janeiro de 2001, mas pode ser que tenha realmente começado em onze de setembro deste mesmo ano. Explicar esta inexatidão seria simples dada a profusão de ajustes em calendários e outras traquinagens de nossos contadores pretéritos. Encaixar uma data cabalística da mesma forma não seria difícil para qualquer numerólogo com um mínimo de ginga. A música daquela época é obviamente um de seus reflexos e o Muse se encaixa no cenário de uma forma exemplar e longeva. Por razões não de todo admiráveis. Continuar lendo

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Ted Chiang: História da Sua Vida e Outros Contos

A biografia da orelha do livro me conta que Ted Chiang escreve pouco. Conta também que ele começou a escrever em uma oficina de escrita, o que fica claro pela intenção variação de abordagens que estes poucos contos apresentam. A impressão é a de que Chiang é um escritor em construção, um artífice desses contos interessantes que ainda vai escrever algo magnífico. O que pode ser apenas um impressão. Considerando o meu critério, Chiang já alcançou a realização enquanto ser humano ao escrever uma história comovente como História de Sua Vida, que foi a base para Dennis Villeneuve criar, em conjunto com seus colaboradores, a obra-prima que é A Chegada. Continuar lendo

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Nicholas Hagger: A Corporação

Eu gosto do inesperado, daquela surpresa que me arrebata. Boa parte do charme dos sebos está no garimpo de clássicos pessoais improváveis a custos camaradas; eu não compraria aleatoriedades por cifras dolorosas. O sebo me dá esta chance de sair do meu caminho trivial, de tomar uma trilha fresca, de novidades e aventuras. Sim, a vida depois dos quarenta ressignifica a aventura.

Outra forma de exercitar a novidade livresca é fuçar as lixeiras. Já achei livros interessantes empilhados na lixeira do prédio onde morava. Já encontrei títulos curiosos na curva de rio que são aquelas prateleiras de livros nos terminais de ônibus de Florianópolis. E encontrei literatura e história nos livros que minha namorada descartou em sua última cruzada pelo desapego. Ela inclusive me alertou quando peguei este volume de Nicholas Hagger em mãos. Eu não lembro direito o que ela falou, talvez soasse como uma profecia e eu devo ter caçoado. Ah, se eu tivesse ouvido. Continuar lendo

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Salman Rushdie: The Satanic Verses

É madrugada de um feriado religioso enquanto escrevo estas linhas, ocasião muito apropriada para relatar minhas impressões sobre um livro que se chama “Os Versos Satânicos”. Pode-se dizer que estou atrasado cerca de trinta anos. Foi no final dos anos oitenta que Salman Rushdie ganhou o privilégio dúbio de ser condenado à morte por um grupo de pessoas que não gostou muito de seu livro.

(Sim, eufemismos me ocorrem de tempos em tempos, inevitável, eu cresci na selva corporativa.)

Ser odiado por extremistas, neste caso, gerou grande curiosidade no restante das pessoas e o livro foi um sucesso. Quando vislumbrei a capa do volume no idioma original, impresso em papel jornal já em boa parte oxidado e oferecido pela bagatela de dez reais, eu estava rendido e pronto a renegar minhas frágeis regras quanto à compra impulsiva de livros. Continuar lendo

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Stellardrone: Light Years

A exploração espacial ganhou novo ânimo nos últimos anos. Pode ser culpa do Elon Musk, pode ser apenas escapismo das crianças do milênio, pouco importa. Há novos filmes e novas séries, e, provavelmente tão importante quanto, há gente criando música para servir de trilha para as viagens espaciais que a humanidade ainda empreenderá. O disco Light Years, de um projeto que conheci por indicação do Google Play Music, Stellardrone, é um épico discreto. A capa de um céu azul escuro marcado por luzes em longa exposição vista da superfície da Terra, ou não, explica o conceito. Canções de duração tradicional, três minutos em média, investem em derivativos sedutores de Kraftwerk. São dez temas instrumentais como nomes que remetem a epopeias espaciais. A proposta é imersão: flutua-se em espaços distintos e distantes, com velocidades que variam, sempre a favor da contemplação de paisagens que se desenham por trás das pálpebras, em algum lugar entre estas e os ouvidos. Pode ser escapismo, mas há destinos piores para se perder ou se visitar, pode acreditar que há.

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50 Tons de Yorke

No dia 22 de Abril de 2018 pessoas diferentes assistiram a diferentes apresentações da banda inglesa Radiohead. Havia algumas, alçadas pelo poder econômico, que ficaram perto do palco e puderam ver e ouvir e se maravilhar com uma banda que, apesar de alguns tropeços, ainda é a melhor da atualidade. Outras pessoas ficaram na pista dois, e de lá pouco se via e, dizem, pouco se ouvia. Em 2009 o Radiohead se apresentou com outra proposta, mais democrática: ingressos todos pelo mesmo preço, entre outros detalhes, mas eles devem ter tido tanta dor de cabeça que voltaram ao Brasil de forma mais convencional. Continuar lendo

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