António Damásio: O Erro de Descartes

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Desde que me conheço por elucubrador me lembro de cultivar restrições a Descartes, o homem que deu feição a um modo revolucionário de ver o mundo e que, curiosamente, está na base da minha formação como engenheiro. A implicância, descobri mais tarde, tinha razões sólidas. A filosofia cartesiana possibilitou a evolução da técnica, que por sua vez deu vazão às maravilhas da revolução industrial. Assim como nossa era discute se a indústria é tão maravilhosa assim, o mesmo se dá com as ideias de Descartes. Ocorre que ambas são ferramentas, úteis por algum tempo, mas que acabam sendo deixadas num paiol para um esquecimento nostálgico ou eventualmente são mantidas pelo meio do caminho para gerar a lembrança dolorosa que as quinas reservam aos joelhos dos incautos. Continuar lendo

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Ursula K. Le Guin: A Mão Esquerda da Escuridão

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Prólogos e introduções causam-me suspeita. O romance ficcional é o ponto de partida para múltiplas interpretações. O autor deve aceitar esta sina sem se condoer pelo destino de suas criaturas. O crítico deve fazer o que diz saber fazer e deve estar pronto para receber as interpretações e as reações que sua resposta pode trazer. Tudo está certo assim, desde que tais intromissões não se realizem em prejuízo ao espaço que o texto original ocupa dentro de um volume impresso. Falo de edições que se propõem definitivas e que impõem ao leitor toda espécie de memorabilia supérflua ou juízos de pessoas importantes cujos textos ou não me interessam ou não estão à altura do texto original, resultado depurado de um tempo de si que o escritor tomou para colocar mais um degrau na evolução da cultura humana. À guisa de metáfora, se tais degraus fizessem parte de uma escada, seria o caso de não agregar rodapés pomposos ou peças de decoração que não sejam efetivamente necessárias. Continuar lendo

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Carne Doce: Tônus

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A sonoridade do terceiro disco da banda goiana Carne Doce remete ao distanciamento eletrônico de bandas antigas como The Cure e nem tão novas como The XX. Este registro é meu primeiro contato com as letras carregadas de sexo e o vocal oitentista de Salma Jô. O disco tem a beleza dos registros em álbum, vive por uma sonoridade do conjunto, algo que, felizmente, não se perdeu na orgia dos lançamentos picotados que, profetas profetizaram, seriam o padrão da internet. Sou um carola quando se trata de letras safadas e daí leva um tempo para entrar neste disco. O que pode ser bom, gosto de discos que me desafiam, me sinto melhor deles depois. Quase sempre. Continuar lendo

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Reinaldo José Lopes: 1499 O Brasil antes de Cabral

lopes1499Vivemos tempos bicudos, em que o adjetivo “incorreto” é visto como algo natural e até necessário em títulos de publicações que se propõem a tratar de assuntos sérios, como história, de um modo diferente, o que, na prática, resulta em textos levianos e irresponsáveis. “Incorreto” tem sinônimos como “errôneo, desacertado, equivocado, errado, falso, imperfeito, impreciso, inexato e inverídico”, então eu nem precisaria estar escrevendo este parágrafo de meu texto. Continuar lendo

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Ira Levin: The Stepford Wives

The Stepford Wives é um conceito amplamente difundido. Eu utilizo para descrever algumalevinstepfords pessoas da minha convivência, inclusive. A narrativa é um ícone pop, por conta deste conceito tão certeiro e também devido à guinada do roteiro. Eu não vi nenhuma das versões cinematográficas, e, considerando as resenhas que a versão de 2004 recebeu, assim como os comentários desabonadores do diretor e de alguns membros do elenco, só darei uma chance à versão mais antiga. O que também é improvável. A narrativa de Ira Levin, também responsável por Rosemary’s Baby e The Boys From Brazil, adere ao papel com uma lealdade exasperante. Roman Polanski, que teve sucesso ao colocar a cria chifruda da Rosemary poderia ser um candidato, mas eu decidi não dar audiência a estupradores de menores. Darren Aronofsky, com seu Mãe, poderia ser uma opção, mas acho que lhe falta o intimismo que a jornada trágica e suburbana de Joanna Ebernhart exige. Enfim, por que eu deveria me preocupar? O livro é suficiente genial. Continuar lendo

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Ana Beatriz B. Silva: Mentes Com Medo

mentesmedoMentes com Medo é um livro da médica Ana Beatriz B. Silva que se propõe a um rasante sobre o que a medicina sabe sobre medos, fobias e ansiedade, entre outras variantes. Ela fala de como a mente é estruturada e como isto impacta no surgimento dessas patologias. Ela fala, por exemplo, sobre transtorno obsessivo compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada usando de uma linguagem técnica simplificada, apresentando os principais sintomas, depoimentos associados a casos que ela tratou e os tratamentos mais comuns para cada patologia. O viés utilizado é o da psiquiatria, então surgem os inevitáveis medicamentos controlados, que são receitados principalmente no início do tratamento, mas que são sempre complementados por terapia cognitivo-comportamental. Continuar lendo

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Stanislaw Lem: Solaris

lemsolarisalephSolaris é um romance que sempre persegui à distância. Sua reputação sempre o precedeu, embora parte dela esteja associada, em minha memória afetiva, à versão cinematográfica de Tarkovski, relembrada pela versão recente do canastrão Clooney. Uma digressão: eu me pergunto quem teve a ideia de jerico de fazer Clooney encaixar em um filme como Solaris? Só pode ser uma ideia “dos mesmos produtores de Gravidade”. Eu não assisti ao Solaris de Clooney, mas meus preconceitos fluíram como tarô e me disseram que deve ser, no mínimo, indigno da grandiosidade intimista deste livro de Stanislaw Lem. Continuar lendo

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