Nunca Mais

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O encerramento de um relacionamento tem seus subprodutos, seus resquícios, suas reminiscências. Um deles é aquela sensação recorrente, nos primeiros tempos do desenlace, de que poderia ter sido feito mais, conhecido mais, brincado mais. Há poemas sobre anciães que se lançam a essas reflexões sobre o tardio, muitos poemas de muitos anciães, tantas reflexões que apenas mostram que as trilhas a serem tomadas, durante a vida ou durante um relacionamento, são poucas, estreitas. A vida poderia ser vista como um relacionamento com a própria consciência. Num universo cuja imensidão nos escapa, nos aferramos à vida, tão rara e tão curta, como esta fosse a regra, e não a exceção. Continuar lendo

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Amartya Sen: Desenvolvimento como Liberdade

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O projeto de idiotização da população brasileira, que chega a uma definição clara com a instauração de uma teocracia movida a patetices truculentas sobre um cerne de neoliberalismo defasado, está nas ruas, clama pela atenção do brasileiro no primeiro executivo movido a redes sociais. Eleitores escolheram um incapaz baseados em mentiras e em sua própria incapacidade de interpretar textos e ideias, o que fica claro pela aclamação de projetos simplistas como o de Guedes, e, antes dele, de Amoêdo. Aceitar que não se entende lhufas de economia, eis um bom começo. Em seguida, ler Amartya Sen. Continuar lendo

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Competição

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Eu sou competitivo. Eu não consigo especificar em que momento percebi este viés da minha personalidade assim como não sei dizer se percebi tal viés primeiro em mim ou se o observei antes em outra pessoa, e nem se esta pessoa era adulta ou mesmo se era uma pessoa. Talvez as rochas compitam entre si ou com outras classes, mas isto ocorra no tempo das rochas e seu sentido nos escape de forma absoluta. Talvez “rochas” seja uma classificação dos humanos e isso nos leva ao primeiro ponto de vista sobre o cerne do que é competição. Continuar lendo

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Emmanuel Carrère: Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos

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Os bastidores de uma obra admirada geram um irresistível magnetismo, que se alastra por sobre a pessoa criadora de tal obra. O amor a um livro pode ser tão intenso que nos lance em aventuras decepcionantes. É o caso de Philip K. Dick. A Scanner Darkly, ironicamente, é o livro onde se vê Dick mais face a face, como na citação de São Paulo. Que era Saulo. Dick, quem diria, era extremamente religioso à sua maneira. Que não era assim uma maneira tão diferente. Sejamos honestos: Dick era um baita de um carola. Como conciliar este carola a uma obra que é disruptiva? É mais simples do que parece. Continuar lendo

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A Tradição do Circo

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Circos já foram piores

Tarde de domingo, a trilha sonora pomposa anuncia a chegada do mágico. O circo privilegia a imagem deste homem, aparentemente já passado de seus cinquenta anos, mas ainda portador de um sorriso imponente, cujo modelo se replica no rosto dos artistas mais engajados. O discurso do mágico é um tanto engessado; num primeiro momento credito a dificuldade ao português não ser o idioma nativo do cara, convicção que evapora breve. Ele executa alguns números, mostra que é competente, conhece as técnicas, apesar do discurso enferrujado. Chama um menino da plateia. A demanda por “um menino”, e não por “uma criança”, me põe em alerta. O menino aparece. O mágico pergunta o nome, o menino responde. O mágico propõe:

– Feche os olhos e imagine duas coisas que você deseja muito. Continuar lendo

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Isabel Allende: La Casa de Los Espíritus

allendecasaEu tenho dificuldade em dissociar A Casa dos Espíritos da adaptação cinematográfica feita nos anos noventa, que conta com um elenco estelar, dentre os quais não consigo dissociar a figura de Esteban Trueba da versão interpretada por Jeremy Irons. Mesmo sem ter visto o filme. O livro me caiu nas mãos em uma visita fortuita ao sebo Elemental, melhor casa do gênero em Florianópolis. Trata-se de uma edição escolar feita na Espanha, contendo um generoso calhamaço de releituras e exercícios para avaliação da interpretação. Continuar lendo

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Yuval Noah Harari: Homo Deus

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Seguir as linhas de raciocínio de Yuval Noah Harari é uma experiência desafiadora e repleta de recompensas, o que não impede que o percurso dessas ideias seja perturbador. Seu Sapiens foi um dos livros mais rápidos que devorei nos últimos tempos, e Homo Deus não ficou muito atrás. Harari analisa o ponto onde chegamos e propõe alguns cenários para onde poderíamos nos encaminhar. Fome, guerra e morte logo não serão problemas, pelo menos para os ricos. Seres vivos não passam de algoritmos bioquímicos. O conceito de mente pode estar à beira de ser desconsiderado e talvez consciência não seja tão relevante quanto inteligência; se este for o caso, os seres humanos se tornarão obsoletos em algumas décadas e podemos estar inseridos em universos do estilo Matrix mais cedo do que imaginamos, abraçados aos animais que tão cruelmente viemos escravizando desde o início da revolução agrícola. Continuar lendo

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