Vódega

troca de corpos nos trapalhões

A bebida oficial do Brasil, a cachaça, deveria ser motivo de orgulho. Seu sabor é um resumo fogoso de norte a sul, e não deve nada a nenhum destilado de outros países. Se existe dúvida quanto à sua majestade, é só casá-la com limão, gelo e açúcar, e está feito um dos porres mais divertidos que você vai tomar. Só não tome Sol junto, e não estou falando da cerveja, embora esta também não seja recomendada.

Confesso que gosto de rum também, mas ele representa uma espécie de contraponto mocinha à boa cachaça, e a inversão de gêneros é apenas uma ironia a ampliar a graça da situação. Com um destilado tão bom, acho estranho que se busquem opções lá fora, mas pode ser apenas uma questão de gostos: por exemplo, há realmente quem aprecie a característica melíflua do uísque, embora eu desconfie que o consumo da bebida escocesa tem mais a ver com imagem do que com gosto.

Quem gosta de bebida importada, bebe bebida importada, ora. O vinho chileno e o argentino possuem relação de custo/benefício muito mais atraente do que seus equivalentes brasileiros, então é óbvio que eu me rendi aos encantos da enologia hispano-americana.

Faço umas bobagens de vez em quando, como na semana passada, em que comprei uma caixa de vinho português. Corro o risco de ser defenestrado do Fã-Clube Jece Valadão, mas os goles de periquita não possuem o mesmo encanto que os de um exemplar genérico do Carmenére mais jaguara da Concha Y Toro: é um vinho burocrático, feito para molhar a boca do indivíduo enquanto este devora uma refeição banal.

Voltando aos destilados: acho curioso que se produzam uísques nacionais. As matérias-primas são diferentes aqui, e parece-me muito difícil chegar a resultados razoavelmente satisfatórios quando se trata de gerar genéricos nacionais de bebidas estrangeiras. Sendo assim, porque não buscar um sabor genuinamente nacional, e deixar que cada país produza seu regabofe característico? O uísque daqui, ouvi dizer de bebedores experimentados, embora sem kilt, que é uma rematada porcaria. Porque insistir em algo que não passa de um arremedo de seu original?

Por outro lado, não posso deixar de admirar os esforços de marketing do sempre criativo empresário brasileiro, e que se traduz de forma admirável nos nomes das vodkas nacionais.

Moscowvita, para começar, é uma adaptação leve. Pega-se uma palavra no português do Brasil, e se acrescenta um W, e está feita a magia de criar um nome tão russo quanto as estepes ou a mancha da testa do Gorbachev.

Depois, segue uma onda funesta de palavras sugestivas terminadas em “of” ou “ov”, cujos exemplos jorram das pouco salutares prateleiras de mercadinhos de qualquer cidadezinha brasileira. Dou menção honrosa à Akdov, que promove tanto a técnica supracitada quanto a elegante arte de inverter palavras para ser engraçadão. E o mais interessante é que é difícil encontrar imagens da Akdov brasileira: há uma Akdov russa, que só pode ter sido criada depois; russos não teriam tanto senso de humor.

As leituras pervertidas de nomes estrangeiros também rendem boas tiradas, e aí cito a gloriosa vodka russa Putinka, que tem o mérito óbvio de mesclar o nome do presidente daquela gelada república e a profissão de muitas moças russas que acorrem a países sedentos por loiras em boates, entre os quais podemos citar boa parte dos Emirados Árabes. E viva a globalização!

Voltando ao Brasil, considero que o ponto alto da realização epistemológica marqueteira neste país é a Popokelvis. Analisemos a estrutura desta palavra:

a. “Popó” é um produto nacional por excelência, e os melhores do mundo se encontram aqui;
b. “Popó” também é o apelido de um famoso boxeador, ou ex-boxeador, brasileiro, e pode-se associar a sensação pós-porre da vodka em questão a um golpe bem aplicado do boxeador citado;
c. “Elvis”, rei, não preciso comentar;
d. “Kelvin” é a escala absoluta para medição de temperatura, e aqui a maestria na criação de nomes chega a seu ápice: o contraponto de temperaturas, vodka gelada versus efeito quente, é perfeito, e é ajustada para a forma como um dos mais famosos pinguços afro-descendentes a pronunciaria.

Enquete: Qual o seu nome predileto de vodka?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Vódega

  1. Roskoff, Rajska são nominhos bem fofos.

  2. Jux disse:

    esqueças as russas: essa daqui é wódega masso pra baralho!
    http://www.wodka-gorbatschow.de/

    essa daí é beem mais cara que a amiguinha Absolut, tida como “fraquinha” nessas bandas 😀

  3. asdra martin disse:

    Acho massa a Trotsky!

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