Michael Ondaatje: Divisadero

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O leitor de Divisadero precisa se acostumar a ser levado pela brisa, como uma semente  de ipê amarelo. Ondaatje nos encanta com seus microcosmos, mas nos arranca deles por, parece-me, capricho. Capricho similar ao de insuflar um sopro de vida em criaturas tão requintadamente simples como Anna, Segura, Rafael, Roman, Claire e todos os outros que habitam o último romance do escritor nascido no Sri Lanka.

Ondaatje rabisca suas personagens em um processo similar ao de Faulkner. A sua pena, porém, é mais delicada, como a de um caligrafista oriental, em contraponto ao giz marcante e quase rude do sulista. A formação acadêmica e rebuscada do também poeta Ondaatje poderia explicar tal fato.

A narrativa é contruída por prosa econômica em contraponto a inserções delicadas de poesia. O escritor nos conduz, por calçadas cuidadosamente pavimentadas, a becos diante dos quais nos ataca uma furiosa introspecção, que nos deixa, em alguns segundos, no transe de um sorriso cúmplice.

Os diálogos se inserem sem travessões, a terceira pessoa narradora chega perto de mesclar-se a algum personagem em dado momento, para repentinamente descolar-se como um espírito de um corpo possuído. Os silêncios se impõem significativos em qualquer ponto onde o leitor os encontre. Ondaatje sabe dar o tempo para a digestão de suas sugestões.

Como em O Paciente Inglês, cada personagem se bifurca em outras vidas, vidas que são muito maiores, em sua intimidade não-declarada, do que os pontos de conexão entre os tais personagens. Em Divisadero, Ondaatje vai mais longe, arrisca-se, deixa partes das vidas ocultas em névoas e meias-frases; se fosse um romance de Gaiman, eu diria que estava deixando pontas para futuras narrativas. É um livro cheio de livros, espalhando-se em espirais.

A natureza humana, ou a sua discussão, é o tema fim de boa parte da produção de Greene. O inglês parece decidido a desossar continuamente os aspectos mais cruéis da existência humana em tramas bem costuradas. Em Ondaatje, a ordem dos fatores se inverte, e cada incursão na agruras de existir é uma acha de lenha na máquina, a vapor, que move a narrativa.

Entre os aspectos bem integrados do animal dominante no planeta, está a sensualidade. O sexo ocorre em diversos formatos, descrito em pinceladas cuidadosamente desleixadas, deixando entrever esta existência íntima dos pares por trás de cortinas que se levantam e se fecham. O escritor não julga, ele apenas retrata e, no máximo, lista as consequências em quadros por vir.

Aqui também há um ladrão, ente querido a Ondaatje, que redescobre vida aos borbotões, saindo das velhas histórias, dos passados recentes e dos dias escondidos. Só não lamento que ele escreva tão pouco porque mais do que isso poderia ser demais.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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