Graham Swift: Terra d’Água

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Pilhas de livros velhos por cinco reais constituem uma provocação irresistível em frequentadores de sebos. O desafio de extrair dali algo que presta é empolgante, e, não raro, implica em dividendos felizes como este Terra d’Água, de Graham Swift.

Adianto que não se trata de uma obra-prima da genialidade em prosa. Swift é antes um artesão cuidadoso, atento aos detalhes. Sua trama principal, de tons policialescos em vestes introspectivas, se resolve antes de cinquenta páginas terem sido viradas. A história que aqui se conta pode ser a história da humanidade, a história dos Fens, a história da família Crick do ponto de vista de Tom Crick, ou a história inconclusa, portanto secreta, das enguias.

Swift demonstra paciência e competência ao dragar o solo mole das influências do desenganado romance dos anos setenta, e dele extrair terras férteis onde lança uma epopeia que remete a cinco séculos antes. Para um leitor latino-americano, é curioso observar a influência do realismo fantástico que ainda caracteriza, ou estigmatiza, a obra de Marquez, por exemplo. No mais, há uma forte marcação cinematográfica na forma como as cenas se encadeiam, ainda que estejam, por vezes, distantes mais de cem anos. Bruxaria, incesto, loucura, bebedeiras mágicas, tristeza na planura, picardias adolescentes, tudo isto entra no caldeirão de Swift, que mexe a mistura de forma profissional, algo previsível em certas passagens.

Crick, o velho professor de história, rende boas divagações filosóficas. Gosto particularmente da passagem em que ele, tratando da França de 1789, reavalia o conceito de revolução. Há algo de circular, como no conceito físico, em revolução. Revolucionários não querem algo novo, eles antes se movimentam de volta. De volta para um passado idealizado. O futuro, seguindo a linha de visão a partir da eclosão da revolução, é uma tentativa de insuflar vida a um passado desprovido das mazelas da realidade dolorosa, composto da matéria de que os sonhos são feitos.

Se soa absurdo, creio que o professor Crick, sentado numa praça quase na linha de longitude zero em Greenwich, pensa o mesmo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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