Chá Verde

Alimento especial paixão pelo encadeamento de assuntos, especialmente em conversas, daquelas caudalosas. O espaço da escrita encontra-me um pouco mais contido, sem a verve dos impulsos de emissor e receptor. Ainda assim, foi o fato de ter visto, na programação da Fenaostra, armadilha para turista que adorna a Florianópolis deste final de outubro, o anúncio de uma apresentação do Guilherme Arantes. Abrilhantam, me perdoem o sarcasmo, ainda o calendário da festa outras celebridades de tempos idos, entre as quais, Ivan Lins, com seus indefectíveis teclados, seus óculos redondos e sua cara de bom rapaz, do tipo que poderia dissolver boa parte dos conflitos no mundo caso se prestasse a sujar suas puras mãos com política.

Se as conexões são tênues, ainda assim não pretendo me prestar a esclarecê-las. Com o Guilherme Arantes, pensei em água, e a água me remeteu a bebidas. As bebidas são várias, apesar de eu quase ter certeza de que o que realmente importa é a água. Enquanto não encontro este estágio de apreciação abstrata e única do solvente universal, vou aproveitando as bebidas.

Cerveja e vinho são as estrelas da minha degustação, embora não me furte a eventuais visitas ao universo de destilados como cachaça, gim, conhaque ou rum. Entretanto, não encontro naquelas garrafas uma realização que eu possa apelidar de espiritual. O vinho se aproxima perigosamente disso, mas deixa as noites posteriores à apreciação descontrolada uma porcaria.

Para preencher um copo de significados profundos e austeros, nada como uma boa dose de chá. Pode ser camomila, pode ser de laranjeira, pode ser de um matagal indistinto do quintal, pode ser de folhas de camelia sinensis. Neste último, incomoda-me a cafeína, bastante perceptível. Alguns alegam que este estimulante leve nos auxilia na tarefa de nos mantermos vivos na era da ansiedade, o que só pode ser argumento de bebedor de café, louco por uma divindade bem fundamentada na cultura pop. Se fosse bom, não estaria disponível, aos baldes, nos escritórios mundo afora.

Infelizmente, nunca poderei provar que sou um voluntário na função de não beber café. Meu estômago recusa veementemente as menores doses de café. Meu olfato ainda liga o cheiro de café aos cafés de domingo à tarde, disparando sensações confortantes de nostalgia. E fica por aí. Duvido, entretanto, que me juntasse às hordas adoradoras de Starbucks; procuro um caminho mais sutil, de percepção.

O chá verde, mais adequado à minha realidade atual, demanda alguns rituais. A água precisa estar em uma temperatura adequada. A permanência das folhas dentro da água é função de diversos humores do dia, obedecendo a tantos fatores que se torna quase merecedora de um tratado sobre a interconectividade de fenômenos universais.

Pela manhã, preparo minha garrafa. Um litro é o suficiente para meu dia. Poderia ser mais, poderia ser menos, mas vivo com a impressão de que realmente é um litro a quantidade perfeita, embora desconfie de que este volume é um ente aleatório, como tantos outros no universo das medidas, convencionadas aos caprichos de sua criação.

A relação profunda cobra seus ônus. Torço o nariz para a atual onda de consumo de chá verde. As pessoas descobriram suas virtudes, oh, e tentam destila-las em formatos adequados a suas manias e à sua busca de facilidades. A indústria do consumo não perdoa, e logo o mistério encantado de revistas de auto ajuda iria se apresentar nas prateleiras dos supermercados em atraentes embalagens.

O chá, que era quente, agora é gelado, talvez frio, mas nada de coisas quentes. Já basta o calor deste país tropical, que flui por corpos suados e bem torneados em propagandas de televisão. As garrafas de chá verde estão nos refrigeradores dos grandes supermercados. E as garrafas são verdes. Imagine a decepção do consumidor ansioso ao descobrir o paradoxo de um chá verde que nem se digna a apresentar sequer pistas do matiz que o nomeia? Melhor garantir a alegria imediata do cliente, facilitar o caminho de suas nobres intenções saudáveis através do caixa.

A piada do chá verde é apenas uma das que nos foram pregadas pelos publicitários. Nos empurram água com sais, e nos fazem esquecer de nossa maravilhosa água brasileira, correndo nos abundantes mananciais do país. Dia desses fui enganado por uma porcaria chamada H2OH, um refrigerante nojento, lotado de aspartame. Dois goles, e amorteceu-me a boca, tamanha a distância que separa este veneno sintético da belíssima água. Guardei a garrafa vazia, e tenho usado-a para levar água de minha torneira, filtrada de modo simples. Lavei algumas vezes antes, e agora não guarda daquele sabor horrível nem rastro.

Um brinde à água, mesmo que com chá verde.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Chá Verde

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  3. Nanda disse:

    “Se as conexões são tênues, ainda assim não pretendo me prestar a esclarecê-las. Com o Guilherme Arantes, pensei em água, e a água me remeteu a bebidas. As bebidas são várias, apesar de eu quase ter certeza de que o que realmente importa é a água. Enquanto não encontro este estágio de apreciação abstrata e única do solvente universal, vou aproveitando as bebidas.”
    Foi muito bom isso!
    O que você tem lido que o influenciou a escrita?

  4. Christian disse:

    A indústria do consumo é capaz de estragar tudo. Mas ao mesmo tempo lança uma nova luz às coisas antigas e “normais”. Já me estranharam por beber água — quando me era oferecido todo um leque de bebidas.

    Logo seremos — os que preferimos a água e o chá verde em sua versão original — exóticos. Todos.

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