O Auto-Engano do Colágeno

A vida das pessoas problemáticas é carregadas de pequenos rituais, e novos desses, ahm, rituais, tendem a se agregar ao conjunto anterior conforme os anos de existência se acumulam. Ao ritual matinal de preparação de chá verde para levar ao trampo veio, nos dias em que tenho natação, o costume de ingerir um copo de gelatina.

O copo, invariavelmente, é reutilizado. Cada um deles veio de uma promoção distinta de creme de avelã com chocolate, ostentando imagens toscas de Bob Esponja ou de um esquilo a sofrer contusões na prática de esportes olímpicos.

Sempre mantive uma relação dúbia com a gelatina. Por um lado, o prenúncio do consumo de colágeno traz toda uma imagem de melhoria da pele, com promessas de cicatrização mais eficiente e maior elasticidade. O processo de extração do colágeno, vocês devem saber, envolve banhos violentos de couro bovino em agentes corrosivos poderosos. No começo dos anos noventa uma empressa tentou empurrar gelatina de base vegetal, mas não colou. Mesmo com o meu trocadilho.

O outro lado da gelatina é totalmente avesso à cartilha da geração saúde: os corantes e os sabores. Sou de uma vertente que gostaria de simplificar o mundo e suas representações. No caso da gelatina, bastava o fabricante colocar na caixinha, ou no envelope, uma indicação da cor do produto. Seriam evitados, assim, malabarismos conceituais como o do fabricante que inventou um sabor framboesa para botar uma gelatina azul no mercado. Ou seria amora? Diabos, que diferença isso faz? A indústria, obviamente, está cega ao óbvio, e insiste em escrever bizarrices como “Sabor da Fruta” nas partes externas dos envelopes, apenas para citar o exemplo do líder de mercado.

Gelatina é o que me faz oscilar, uma vez mais, entre os extremos da técnica mais popular para sobrevivência no subúrbio moderno: o auto-engano, corretamente conceituado e explanado em obra de Eduardo Giannetti.

Um ponto interessante foi a migração, não lembro exatamente quando, das embalagens de papel, com pacote interno, para o prosaico pacotinho, equivalente ao de suco artificial, que temos atualmente. Alguma coisa, enfim, evolui no sentido de gastar menos material e energia do planeta.

No universo concorrente à gelatina, devo confessar que nunca me agradou a maria-mole, exceto em momentos de desespero, como os ocasionados por deficiência de açúcar em locais ermos ou necessidade de contraponto ao consumo excessivo de cerveja. Por outro lado, volta e meia faço visitas nostálgicas ao universo da goma americana. Refiro-me às gomas que vêm embaladas naqueles cilindros plásticos com alguns escritos externos, e não às clássicas jujubas, que vêm geralmente um saquinhos plásticos.

A goma americana tem um aspecto lúdico além dos pólos conceituais opositores e curiosos da prima gelatina: o pacote de goma americana deve ser analisado antes de ser comprado, ou arrisca-se a ter muitas gomas de uma cor que não lhe agrada.

Novamente observa-se a importância da cor, e seu caráter absoluto na representação da guloseima: tenho minhas predileções bem claras no caso do primeiro lugar, e ela sempre será a laranja; certas certezas são inequívocas. Em segundo lugar, provavelmente as roxas, mas as traio constantemente com as verdes. Brancas e amarelas não ficam longe das vermelhas, e eu ainda gostaria de estar vivo quando inventassem gomas azuis. Nem precisam inventar a desculpa do sabor, basta a tinta azul, mas não de caneta Bic, engraçadão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para O Auto-Engano do Colágeno

  1. Ana Corina disse:

    hahahahhaha Adorei. Mas só o texto, porque das gelatinas, gomas e marias doces e moles, guardo distância. Nunca fui fã. Já dos copinhos promocionais dos cremes de avelã, não posso dizer o mesmo. AMO e a minha Moira amada tomava suas homeopatias devidamente diluídas em água em um trash copito do Bob. Mas a vida é isso aí, feita de auto-enganações, pitadas de consciência e controle e creme de avelã!

    😉

  2. MM disse:

    Caramba, não lembro dessas. Agora fiquei com vontade de provar. Tem umas de gomos que tb não mais vi. Vinham em uma embagem de plástico duro , redondo.
    Tem agora umas no formato de minhocas que não gosto. Acho ácidas.
    Minha irmã compra uns pacotes grandes no R$1,99 em gomos que são do tipo ..
    Olha só…daria uma monografia esse tema:

  3. Quanto à cor das balas de goma, depende. Depende da marca. As mais deliciosas que alguma vez já comi não se fabricam mais. Eram semiovaladas e vendidas em pacotes de meio e de 1 quilo. Aquelas brancas eram sensacionais. Da neugebauer, gosto das brancas e das verdes, em primeiro lugar. Da dori, gosto mais das laranjas, mas detesto as roxas. Não espero ansioso pelas azuis, mas se estivessem precisando de capital para investir e reabrir a fábrica daquelas semiovais de 20 anos atrás, podem me ligar.

  4. gilvas disse:

    sinistro! vou olhar melhor as minhas próximas caixinhas de gelatina…

  5. MM disse:

    Então…também não me contenho com as cilíndricas, em especial a de cor laranja…mas falando das gelatinas, participei da construção de um documento de orientação para os pediatras (via Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria) sobre rótulos e suas pegadinhas.
    No que se refere as gelatinas , para meu espanto, todas aquelas gelatinas para criancinhas, cheias de bichinhos , não há referência que são também constituídas de adoçantes artificiais…Pergunto pra que? Porque não o açúcar? Não está indicado o uso de adoçantes artificiais em crianças saudáveis. Bom esse é um dos engodos ou pegadinhas dos rótulos…há outros, como a gordura maléfica Transssssssssssssss

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