Jon Favreau: Cowboys & Aliens

Aconteça o que acontecer, não adentre a sessão de Cowboys & Aliens com expectativas. Tenho lido resenhas e comentários, e muita gente não gostou. Acho que, na verdade, ninguém gostou. Tem momentos em que eu penso que é uma sociedade bem paradoxal esta que é tolerante o suficiente para permitir que Tarantino e Von Trier continuem filmando, mas que não consegue entender a mensagem de Jon Favreau.

O problema pode ter sido o sucesso imenso conquistado com um personagem, de quadrinhos, de segunda linha como o Homem de Ferro. Heróis de armadura não são exatamente uma novidade nas telonas, sendo que Robocop provavelmente já esgotou o filão na década de oitenta. Favreau foi competente, mas existe uma certa unanimidade, correta, em torno do fato de que Robert Downey Jr. é quem realmente fez a diferença, e o mesmo se aplica ao Sherlock Holmes de Guy Ritchie.

Calculo que muita gente viu Homem de Ferro e curtiu a ponto de esquecer que era um filme baseado em um gibi. O carisma poderoso de Downey Jr deve ter ajudado a criar esta percepção, enquanto Favreau trabalhava num roteiro bem estruturado, buscando contar uma história. Sim, filmes de Hollywood ainda podem conter uma boa história.

Meu palpite é que o espectador médio de cinema deve ter visto o trailer e pensado “uhm, caubóis e alienígenas”, e várias imagens passaram em sua cabeça, algo começando em Alien versus Predador, um dos filmes mais terrivelmente ruins que eu não gibi, e aterrisando em As Loucas Aventuras de James West, outra película a qual me furtei, guardando-a para alguma tarde pavorosa em algum consultório de convênio, durante alguma crise de alguma moléstia funesta. Só para Will Smith aparecer na telinha do televisor da sala de espera, dublado, e eu levantar minhas mãos para o firmamento, e finalmente me entregar à derradeira fúria divina.

Assim, o ponto é que tu provavelmente não vai gostar de Cowboys and Aliens. A menos que você seja um fã de gibis. Favreau filmou um gibi. Com o mesmo ritmo, a mesma estrutura de personagens e fatos, com a mesma percepção de um personagem em relação aos outros.

Outro ponto a considerar é que a premissa, difícil de filmar, pede que a ótica do espectador parta do faroeste para as pitadas de ficção científica cinqüentista, e não o vetor contrário. Presumir que rufiões novecentistas consigam dar conta de expulsar alienígenas capacitados a viajar entre sistemas solares é quase tão irreal quanto acreditar que existam os tais alienígenas. Presumivelmente, se tu acreditou neste começo, deglutir os personagens unidimensionais do faroeste, muito típico por sinal, será tranqüilo.

Daniel Craig, claro, não adquiriu carisma de um dia para o outro, e continua tendo aquela cara de bunda azeda que todos conhecemos. Ele é um cavaleiro solitário que me comoveu apenas por ter aceito o papel surreal e aquele bracelete tecnológico. De outro modo, ele ou Clive Owen se equivaleriam em ruindade.

Harrison Ford, por outro lado, foi perdoado pela marmota digital do último Indiana Jones. Aliás, ele foi perdoado por todo o último Indiana Jones, outra película que guardei para algum dos meus dias no purgatório, se é que é lá que eu passsarei a eternidade. Ford está extremamente divertido como o vilão redimível, e consegue momentos de excelente rendimento por conta de sua relação com seus filhos espirituais. Paul Dano, seu único filho verdadeiro, entretanto, parece ter estacionado em um clichê de seu papel em Sangue Negro. Uma pena.

Olivia Wilde merecia palmas por ter se prestado a um papel complicado pelo viés inverossímil. Ela não deve ser condenada por falhar na missão, mas deveria repensar suas escolhas dos próximos papéis. Ainda que esta personagem seja bem diferente da andróide gostosinha e bocó de Tron Legacy, ela poderia ter se arriscado menos.

Pode parecer que este resenhista rabugento não gostou de Cowboys And Aliens, mas não é o caso. Diverti-me tremendamente com o roteiro bem amarrado, com a trilha competente, com as caracterizações delineadas ao detalhe do clichê de faroeste, com os monstrengos bem convincentes, com a boa meia dúzia de piadas, com a emoção das amizades masculinas sendo forjadas naquele ambiente hostil. Favreau provavelmente foi mal compreendido, e não terá mais um orçamento tão legal para filmar um gibi. Talvez ele se renda à Marvel, e faça um terceiro Homem de Ferro. O que seria uma pena. Acho difícil espremer mais algum suco daquela lata alaranjada.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo e marcado , , , , . Guardar link permanente.

9 respostas para Jon Favreau: Cowboys & Aliens

  1. Jones disse:

    “ele ou Clive Owen se equivaleriam em ruindade.”
    Ri muito. =)

    • gilvas disse:

      clive owen é homenageado neste blogue há anos: https://gilvas.wordpress.com/2005/02/21/mike-nichols-closer/

      • Jones disse:

        Clive Owen e Nicholas Cage me parecem irmãos gêmeos.

        Voltando ao Daniel Craig, eu curti muito ambos os 007 com ele.

      • gilvas disse:

        sei, inclusive aquele do manezinho metaleiro, “quantu solasse”, né?

      • Jones disse:

        Como um fã de filmes de ação, não há como resistir à perseguição automobilística da primeira cena, com o Chiffre no porta-malas, sem saber…
        Além disso, Olga Kurilenko, maravilhosamente bela e determinada, chegando de Ford Ka (que a Ford insiste em não vender no Brasil, há anos) e ordenando: “GET IN”.

        Acho que o mau humor e a indiferença que o Craig demonstra no filme, junto à preferência pelo Scotch é totalmente James Bond.
        Os anteriores eram comediosos demais.
        Roger Moore mesmo… no comments.

      • gilvas disse:

        cara, o ka alemão é lindo. mas é caro que dói. na verdade é um fiat 500 com outra cobertura. a ford alemã, pelo que consta, está decepcionada com o desempenho em vendas, e ordenou que a engenharia fizesse um novo ka, com dna ford mesmo. nada a ver com o daqui, claro. aliás, eu troquei meu ka original por um ka desses novos: https://gilvas.wordpress.com/2011/03/01/um-adeus/

  2. Turnes disse:

    é né? Mountain bike? ui ui ui….sei…

  3. Turnes disse:

    hum…a emoção das amizades masculinas sendo forjadas num ambiente hostil…aham…sei.

    • gilvas disse:

      renatinho, tu tás muito duplo sentido, ein? já colocaste os aliens fazendo figuração em caubóis de moutain bike…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s